O OURO E O DIAMANTE DAS
MINAS GERAIS E A TRANSFORMAÇÃO ECONÔMICA, SOCIAL E POLÍTICA NO BRASIL
 

A descoberta e a exploração dos riquíssimos depósitos de ouro no Distrito das Gerais, no final do Século XVII e em todo o XVIII, transformaram a economia mundial.
Constituído por um planalto formado principalmente pela Serra da Mantiqueira e suas ramificações, esse distrito guarda os vales que se cobriam de espessas matas, onde a vegetação robusta denotava a extraordinária fertilidade da terra, fortemente mineralizada e enriquecida por milenários depósitos de húmus.
O Espinhaço é geograficamente considerado como a principal cadeia de montanhas. E foi nos flancos dessa cordilheira que se encontraram o ouro e os diamantes. Região de clima temperado, foi nela que despontou e se desenvolveu a civilização do ouro que prontamente se irradiou pelo Brasil.
O descobrimento do Vale do Ouro Preto, em 1695, despertou o interesse de todos os aventureiros da época. Essa terra deu tanto ouro que foi logo ocupada por paulistas, cabendo a cada um desses uma área de três braças de frente, o que aparentemente era pouco, mas os fez enriquecer rapidamente.
Quem percorre hoje os planaltos e sertões mineiros (da Mata da Corda até Paracatu) ou segue as margens dos Rios São Francisco, Jequitinhonha, das Velhas e Grande, encontra as marcas dos homens que extraíram a maior quantidade de ouro do mundo, no menor espaço de tempo. Nunca saberemos ao certo o montante desse ouro, porque as estatísticas referentes ao período são falhas, e documentos autênticos revelam que muitas vezes mais do que consta nos registros oficiais se encontra, documentadamente, no contrabando e na saída ilegal do ouro, produzido nas Minas Gerais durante todo o Século XVIII.

A mina de Gongo Soco, depois de muito explorada pelo Barão de Catas Altas e João Batista de Souza Coutinho, entre outros, ainda dava lucro, no Século XIX, à companhia inglesa Brazilian Gold Exploring Syndicate. Alguns anos depois, com o desabamento da mina principal e a falta de confiança dos acionistas ingleses, a companhia cessou suas atividades, tendo voltado, com tecnologia moderna, no final do Século XX. Este foi o destino de quase todas as minas antigas, inclusive as que pertenceram às companhias inglesas que não puderam sobreviver aos sinistros e à corrupção.
O desbravamento do ouro de Minas transformou a economia mundial, dando à Inglaterra a supremacia financeira da Europa e, conseqüentemente, do mundo ocidental. Em nossa pátria, criou comunicações interiores, acelerou o povoamento, resultou na construção de deslumbrantes conventos e templos na Bahia e em Pernambuco, e da grandiosa arte sacra, encontrada da Capitania do Grão Pará ao Rio de Janeiro. A expressão mais sugestiva de toda essa riqueza, embora não seja a única, é o Convento de Mafra, monumento de riqueza e arte construído pelo rei Dom João V, em Portugal.
O Convento de Mafra reergueu Portugal do declínio artístico em que o haviam deixado os Filipes de Espanha. A arquitetura, a escultura e todas as artes decorativas tiveram, nesse imenso e riquíssimo monumento, os modelos mais primorosos que transformaram a arte portuguesa, o que chegou rapidamente ao Brasil.
Pela Europa, Dom João V se dedicou às compras de obras de ourivesaria, nos contratos de artistas célebres, na aquisição de materiais de toda a sorte para as suas grandiosas concepções. O monarca espalhou seus dobrões de ouro por toda parte e ainda pôde transferi-los à Inglaterra, pelo Tratado de Methwen, que entregou praticamente aos ingleses todo o comércio exterior de Portugal. Sob este tratado, que arruinou por mais de um século a economia portuguesa, destruiu-se a agricultura e reduziu-se Portugal a um simples satélite da Grã-Bretanha, como o qualificou o Marquês de Pombal em sua famosa carta a Lord Chattam: “Há cinqüenta anos, tendes tirado de Portugal mil e quinhentos milhões, soma enorme e tal que a História não aponta igual com que uma só nação tenha enriquecido a outra. O modo de haver estes tesouros vos tem sido mais favorável ainda que os mesmos tesouros; porque é por meio das artes que a Inglaterra se tem tornado senhora de nossas minas e nos despoja regularmente de seus produtos. Um mês depois que a frota do Brasil chega, já dela não há uma só moeda de ouro em Portugal. A maior parte dos pagamentos a Inglaterra o faz com o nosso ouro, por efeito de uma estupidez nossa de que não há exemplo em toda a história Universal do mundo econômico”.
Os banqueiros ingleses, com o ouro de Minas, criariam a libra esterlina e conquistariam a estabilidade econômica e financeira. Enquanto a França, esgotada pelas guerras de Luiz XIV, afundava-se com as emissões de papel-moeda, que levariam o país à miséria e à revolução.
Quanto aos resultados para o Brasil, escreve o economista Roberto Simonsen: “Esse ouro teve resultados bem diversos; se não ficou incorporado em empreendimentos de grandes resultados para o futuro, incentivou, no entanto, uma vultosa emigração para o centro-sul do País; permitiu a construção de nossas primeiras cidades do interior; criou um grande mercado de gado e de tropas, estimulando os paulistas à ocupação e conquista definitiva das regiões do Sul; tornou o Rio de Janeiro a capital brasileira; permitiu a concentração e formação de capitais em escravos e tropas que, mais tarde, facilitaram a implantação da lavoura de café no Vale do Paraíba e nas regiões fluminenses”.
O ouro das Minas Gerais introduziu a cultura e a civilização num Brasil semibárbaro até então. Augusto de Lima Júnior assim se refere ao período, lembrando palavras de Afonso Arinos: “As serras apojadas de ouro vazaram as suas preciosas areias para os córregos e riachos; os leitos e os barrancos destes espalharam por centenas de léguas a quem vinha explorá-las os seus grãos luzentes, e os milhões sonhados surgiram deveras num bailado que durou um século e, ao terminar, deixou no Brasil uma obra gigantesca e imperecível: as suas fronteiras dilatadas e seguras; o seu enorme território ocupado de direito e a sua administração organizada”.