AS ORIGENS DE MINAS GERAIS
 

Desde o Século XVI, a partir da Bahia, diversas excursões partiram em direção ao interior, nas terras que viriam a ser as de Minas Gerais, na busca de ouro e pedras preciosas. Os caminhos eram os dos rios Doce, Velhas, Guandu e Jequitinhonha. Mas as baixas eram muitas, tendo como um dos motivos a ferocidade dos índios que ali viviam, como os Tupinaens. Depois que Marcos de Azevedo Coutinho voltou de uma excursão, já no final do século, com esmeraldas de boa qualidade, a novidade propagou-se e as entradas se multiplicaram, não mais partindo da Bahia, mas também do Rio e de São Paulo.
Registros de precursores, como Nicolau Barreto, já em 1602, dão conta da chegada do homem branco ao Rio das Velhas, assim como do flamengo William Climmer, que chegou até as cabeceiras do Rio São Francisco. Mas foi o bandeirante Fernão Dias Paes Leme quem organizou a primeira expedição com o objetivo de fixar o homem no interior, em movimento que passou à História como Entradas e Bandeiras. Foi seguido pelo filho Garcia Rodrigues Paes Leme e pelo genro, Manuel da Borba Gato. Fernão Dias não era homem movido pela ambição ou pela aventura. Era um idealista, um homem com grandeza e consciência do momento de se iniciar a criação de uma grande nação. Sua partida de São Paulo, na missão consagradora de sua vida, foi em junho de 1674.
Não faltaram episódios dramáticos à longa e penosa jornada de Fernão Dias. O pior, talvez, tenha sido a traição de seu filho natural, José Dias, que, cansado e acovardado com as dificuldades, inclusive doenças, na longa caminhada pelas montanhas e vales mineiros, conspirou para forçar uma volta ao litoral, a ponto de admitir o assassinato do próprio pai. Descoberto, foi condenado à morte e enforcado pelo sofrido pai. Mas a medida extrema não impediu que muitos abandonassem a empreitada e regressassem. Fernão Dias impôs à família o sacrifício da venda de seus bens para financiar a aventura, na busca das minas, o que lhe valeu o título de “Caçador de Esmeraldas”, que chegou até o território que hoje pertence ao Estado de Goiás. A jornada do desbravamento levou sete anos, ao fim dos quais, já no regresso, ficou doente e veio a morrer, nas margens do Rio das Velhas, onde foi enterrado no primeiro semestre de 1681.
Após a morte do “caçador de esmeraldas”, verificou-se, no entanto, que as pedras encontradas não eram esmeraldas, mas sim águas-marinhas. Mas as lendas criadas a partir daí ajudaram na formação de novos grupos, na fixação de povoados ao longo das trilhas e do curso dos rios que passaram a ligar a Bahia, o Rio de Janeiro e São Paulo ao interior, à terra que viria a receber o nome de Capitania das Minas Gerais.

No final do Século XVII, foi descoberto o ouro na região – o que fez com que o vale, onde foi encontrado o metal, se transformasse na principal cidade do interior do Brasil, na capital de Minas, que inicialmente teve o nome de Minas Gerais do Ouro e depois Vila Rica do Ouro Preto. O curioso é que o primeiro governador da província, Antônio de Albuquerque, que acumulava o mesmo cargo em São Paulo, chegou a tentar colocar na cidade o nome de Vila Albuquerque, o que não foi aprovado por Lisboa.
Deve-se observar que foi forte e permanente a presença do clero nas expedições e entre os habitantes dos primeiros povoados. Muitos acreditam que o primeiro religioso a se fixar em Minas foi o padre franciscano frei Ancângelo. No entanto, pesquisa de Antônio Dias, hoje nome de um bairro de Ouro Preto, aponta o grupo do padre Faria Fialho como o pioneiro. Seja como for, logo se iniciou a construção do que veio a ser o maior e mais rico conjunto de igrejas, capelas e chafarizes do Brasil, preservado até nossos dias. A área, aliás, foi considerada “Monumento Nacional”, pelo Governo Getúlio Vargas, e “Monumento Internacional”, pela UNESCO, durante o Governo José Sarney, no qual o mineiro José Aparecido de Oliveira foi ministro da Cultura.
Na época da construção de Ouro Preto, a falta de segurança era tanta que ninguém circulava entre os povoados à noite e só se viajava em verdadeiras caravanas. Eram muitos os escravos que fugiam e passavam a viver de assaltos nas estradas. Minas recebeu muita mão-de-obra escrava, voltada para a mineração. Como não desenvolvia a agricultura, os víveres vinham do Rio e chegavam ao interior a preços absurdos. Existem depoimentos de que famílias que tinham reservas de ouro passavam fome, especialmente por ocasião das fortes chuvas de verão.
A fama da região acabou chamando a atenção de portugueses com espírito de aventura e da população do litoral, especialmente de São Vicente e Rio de Janeiro. A absorção dos índios locais foi difícil. Foi a época do povoamento do Brasil, com a vinda, inclusive, de cristãos-novos, que, fugidos da Inquisição, aportavam no país em busca de fortuna. Até as tripulações dos barcos provenientes de Lisboa sofriam defecções, com muitos fugindo para se embrenharem no interior brasileiro. Todos à procura da fortuna fácil e certa.
Outra região desbravada na mesma ocasião foi a do São Francisco, onde se instalaram as primeiras fazendas e os povoados próximos ao rio, que impressionou pela piscosidade abundante.
Em 1720, Minas do Ouro – era esse o nome – passou a se constituir em unidade autônoma, desmembrada de São Paulo e com governante próprio, D. Lourenço de Almeida, recebendo a denominação de Minas Gerais. A população estimada era de 250 mil pessoas, sendo 100 mil de brancos (portugueses, em sua maioria) e o restante entre negros, pardos e índios. Na virada do século, Minas já teria mais de 600 mil habitantes, constituindo a maior população do Brasil, que atingia um total de 2,8 milhões. Minas era uma realidade. A busca do ouro e das pedras preciosas do Estado povoava o interior do Brasil, abrindo caminho para a ocupação de regiões do interior, como Goiás e Mato Grosso.
Era enorme o montante de ouro que saía de Minas Gerais para Portugal, que viveu seu período de grande riqueza, construindo e enriquecendo monumentos que, até hoje, formam o seu mais rico patrimônio histórico e artístico.
O ouro provocou violência, carestia e corrupção – até a Igreja teve problemas com religiosos que foram para Minas com autorização de esmolarem e não deram mais notícias ou prestaram contas às respectivas ordens –, mas serviu para a formação dos primeiros movimentos de independência do país. E aqui citamos o que foi liderado pelo republicano Filipe dos Santos, em 1720, e a Inconfidência, que, em 1789, reuniu intelectuais, poetas, homens de fortuna, funcionários e militares, como Tiradentes.