MARÍLIA E DIRCEU
 

Enquanto a Inconfidência Mineira tomava forma, Tomás Antônio Gonzaga chegava a Vila Rica para exercer o cargo de ouvidor. Filho do desembargador brasileiro João Bernardo Gonzaga e da portuguesa Tomázia Isabel, batizara-se em 2 de setembro, na Igreja de Miragaia, na cidade do Porto. O velho desembargador, depois de ter exercido a magistratura no cargo de juiz de fora de Angola, Cabo Verde e Bahia, chegara ao final de sua carreira na Relação do Porto. Tão rápidos foram os estudos do pequeno Tomás Antônio, que logo foi encaminhado a Coimbra, onde, em 1768, com apenas 19 anos, recebia o grau de Doutor em Leis pela ilustre Universidade. Pretendendo ingressar na cátedra, inscreveu-se o jovem bacharel no Livro dos Opositores, isto é, dos candidatos ao magistério, apresentando uma obra sobre Filosofia do Direito. Mas, sem querer esperar a decisão da universidade, encaminhou-se para a magistratura.
No início de 1783, logo após sua posse no cargo de ouvidor, Tomás Antônio Gonzaga foi habitar uma magnífica residência na Ladeira de Antônio Dias, Vila Rica. E foi nessa casa que o ouvidor se apaixonou por Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, uma moça de 15 anos, que lhe inspirou os formosos poemas que o tornaram célebre.
Maria Dorotéia, alvo dessa paixão, era uma das filhas do capitão de cavalaria de Vila Rica, Baltazar Mayrink, e sua mulher, D. Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Enviuvando, o capitão Baltazar Mayrink se retirou da atividade militar, indo para sua fazenda do Fundão das Goiabas. Entregou seus cinco filhos menores aos cuidados de suas cunhadas solteiras que, com seus irmãos, também solteiros, habitavam a Casa Grande.
Tomás Antônio Gonzaga tornou-se logo uma figura de destaque em Vila Rica, graças à sua vasta cultura, à fama de fazer bons versos quando ainda estava em Coimbra e suas palestras. Rapidamente fez boas relações, incluindo aqui a família da Casa Grande. Assim, o ouvidor, até ali pouco dado aos delírios amorosos, viu-se fulminado pelos encantos de Maria Dorotéia.
Desde o primeiro instante, o Árcade Dirceu desatou a cantar a doce amada, que ele apelidara de “Marília”, conforme o costume dos poetas de dar pseudônimos ao objeto de seus amores. Mas a conquista de Maria Dorotéia não foi obra de um momento. Enquanto o coração ardente do poeta se entregava instantaneamente aos arroubos de uma paixão que o dominava inteiramente, Dorotéia perturbava-se com aquele adorador, muito mais velho do que ela, ocupando um alto cargo na magistratura.
No começo veria como carinhosa atenção, sem objetivos, num simples jogo de palavras, esses poemas onde se falava em Marília e não em Maria Dorotéia. Tomou por gracejo o fato de o poeta identificá-la com a criatura a quem se dirigiam tão fervorosas súplicas. Gonzaga, ao mesmo tempo, procurava responder às possíveis objeções que a idade e condição pudessem ocorrer à moradora da Casa Grande.
Toda Vila Rica sabia a quem se dirigiam os poemas de Gonzaga, que andavam de mão em mão, recitados e cantados com música de Marcos Portugal em todos os salões, nas conversas de ponte e nos adros da igreja. Gonzaga lia-os a Dorotéia, na própria Casa Grande, em visitas freqüentes. Nas reuniões costumeiras na residência de Cláudio Manoel da Costa, esses poemas eram aguardados com ansiedade.

Marília e Dirceu (Publicado em "O Amor Infeliz de Marília e Dirceu").

Dois anos se passaram nessa tentativa de conquista. Os tios de Dorotéia não viam em Tomás um homem capaz de fazê-la feliz. Lembravam-se de que o cargo de ouvidor é temporário e que, depois de findar o período legal, ele pudesse levar embora a sobrinha querida.
A resistência de Dorotéia foi, talvez, a causa de tantos e belos poemas líricos que um namoro fácil, seguido de um casamento burguês, não teria propiciado. São os amores difíceis os mais fortes inspiradores dos poetas. E todos os cantos que pertencem a esta fase melancólica e incerta, que precedeu o noivado oficial em 1786, demonstraram as torturas íntimas do poeta. Ele receava que o próprio tempo lhe arrebatasse a amada; receava a velhice, as desgraças; tinha uma secreta premonição do futuro e, apavorado, dirigia a Marília a Lira XIII.
Gonzaga, identificado com a terra natal daquela que era tudo para ele, tornou-se conspirador pela independência da pátria que adotara, por esta ser de Marília. O tempo avançava e chegara, enfim, o ano de 1788, e com ele o término de sua investidura no cargo de ouvidor e a chegada a Vila Rica de Pedro José de Araújo Saldanha, para substituí-lo. Um decreto real nomeou-o desembargador da Bahia. Gonzaga apressou-se em obter licença régia para seu casamento com Dorotéia.
Em julho de 1788, assumia em Vila Rica o governo da Capitania Luiz Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro, o Visconde de Barbacena. Via as idéias de independência como devaneios dos poetas. Somente com o tempo percebeu a gravidade da situação. A Conjuração Mineira estava em seu apogeu. O governador, por ter se afeiçoado aos amigos Gonzaga e Cláudio, preferiu se esquivar à convivência com eles e transferiu sua família para o Palácio da Cachoeira.
Vários fatos indicam que Barbacena, durante algum tempo, tenha sido confidente dos planos dos poetas; no entanto, levara tudo pelo aspecto romântico. Falava-se, em Minas, que o visconde conspirava com os inconfidentes, arrependendo-se depois. Cláudio Manoel, Gonzaga e Tiradentes teriam sido os guardiões desse segredo.
Mas Joaquim Silvério dos Reis escreve a denúncia de que teria sido atribuída a Gonzaga a missão de cortar a cabeça do Visconde. O governador, então, ordena que prendam todos os conjurados.
O casamento de Gonzaga e Dorotéia seria realizado no dia 31 de maio de 1789. Em meio aos preparativos, uma notícia circulou, secretamente, acabando com a alegria de Gonzaga e de seus amigos. Um homem, trajando uma capa preta e largo chapéu desabado, bateu na porta dos principais conjurados, avisando-lhes que deviam queimar os papéis comprometedores e que fugissem para não serem presos.
Na manhã do dia 23 de maio, Gonzaga foi arrancado do leito. Com a desgraça, às vésperas do seu sonhado casamento, o poeta caiu em abatimento. Gonzaga verificou surpreendido que seu romantismo político e seus planos de independência estavam comprometidos pela maldade das autoridades, que promoviam o derramamento de sangue e decapitações dos seus amigos.
Em 8 de junho de 1789, no calabouço da Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, Tomás Antônio Gonzaga, emagrecido, sujo e humilhado, aguardava as resoluções do destino. Agarra-se ao amor de Marília para sobreviver. Dedica-se a escrever as Liras, que supunha estarem sendo entregues às mãos de Marília.
Sem nenhuma notícia de Marília, Gonzaga sentia falta de suas cartas e não entendia o silêncio de sua noiva. E essa, por sua vez, chorava a falta de seu amado. Julgava-se esquecida. Todo aquele amor parecia haver morrido, pois o poeta havia se calado. Mal sabia ela que o motivo era outro: sua família impedia que as correspondências chegassem ao seu destino.
Gonzaga sofreu longos e penosos interrogatórios, mas, em todos eles, negou, veementemente, a sua participação no levante de Minas. Temia envolver, inutilmente, seus amigos e expor sua querida Marília aos perigos da devassa. Tiradentes, questionado sobre a atuação de Gonzaga, também negou que esse tivesse qualquer envolvimento na Conjuração Mineira. Chegou a afirmar convicto que esse era seu inimigo, o que, aliás, era uma meia-verdade.
Enquanto isso, na masmorra, Gonzaga desculpava o silêncio da sua amada, adivinhando os obstáculos impostos pela família dessa. Marília, no entanto, julgando-se esquecida, passou a esquivar-se dos contatos sociais, a falar pouco e a cuidar dos sobrinhos.
No dia 17 de abril de 1792, os presos foram retirados das masmorras e conduzidos até a sala da capela da Cadeia Pública. Diante do oratório, os velhos amigos se encontravam, depois de tanto tempo, para ouvir a leitura da sentença, que, tudo indicava, os levaria à forca. Em meio ao silêncio, às vezes interrompido por abafado soluço das vítimas, o desembargador Luiz Alves concluiu a leitura do julgado. Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, foi condenado à forca. Os demais inconfidentes seriam enviados às regiões insalubres da África. Tomás Antônio Gonzaga seria transferido para Moçambique, onde viveria exilado por dez anos.
Gonzaga conseguiu mandar por um amigo uma mensagem para Maria Dorotéia. Pedia-lhe que se casassem e que fossem morar em casa nova no exílio. Por determinação do Governo Régio, estava proibido às famílias dos condenados que os acompanhassem, estando sujeito à prisão quem não cumprisse o determinado. Assim, impossibilitada de explicar ao seu amado os motivos de sua recusa, Maria Dorotéia teve que alegar, em carta, as dificuldades do mau clima. Gonzaga custou a acreditar. Com um pequeno pacote de Liras nas mãos, ora chorava, ora ficava em silêncio, atormentado-se com perguntas e hipóteses. Por fim, entregou-se a uma profunda tristeza. O poeta emudeceu.
Pouco tempo depois de sua chegada a Moçambique, Gonzaga foi acometido por uma enfermidade. Foi transportado para a casa do negociante português Alexandre Roberto Mascarenhas, onde poderia receber melhor tratamento. Abatido pelas últimas desgraças e ainda com problemas no fígado desde a mocidade, o poeta passou muito tempo entre a vida e a morte, sendo assistido pela família do negociante que o hospedara. Tal fato acabou por dar mais um toque novelesco à história de amor entre Dirceu e Marília.
Juliana Mascarenhas, filha do comerciante, cuidava do poeta com tanto carinho que acabou tendo que se casar com ele para não ter sua honra comprometida. Gonzaga aceitou tudo sem relutância, como se estivesse ausente. O casamento foi em maio de 1793 e, até o fim de seus dias, o ex-ouvidor permaneceu ao lado da jovem, sem escrever uma só linha de seus versos, apesar de lhe atribuírem duas poesias apócrifas.
Decorridos os dez anos de degredo, Tomás Gonzaga continuou em Moçambique. E, em Minas, Maria Dorotéia pretendia seguir para Lisboa a fim de encontrar com o antigo noivo, mas soube que esse se casara com Juliana e desistiu. Fingiu indiferença e, sem recriminá-lo, entendeu suas razões.
Marília adaptara-se ao sofrimento, sempre fiel ao seu amor, vivia das recordações do tempo em que Dirceu lhe dedicava as sublimes Liras, não freqüentava as festas e convivia apenas com gente íntima.
As edições dos poemas a Marília de Dirceu esgotavam-se rapidamente; o poeta era festejado não só nos países de língua portuguesa, como também em espanhol, em francês, em italiano. Até na Rússia o seu poeta nacional Púchkin (1799-1837) verteu a Lira IX da 2ª parte (A estas horas, eu procurava os meus amores), provavelmente à vista da tradução francesa das obras de Gonzaga publicada por Monglave em 1825.
Enquanto isso, o antigo vate de Vila Rica mergulhava na neurastenia que haveria de agravar-lhe o sofrimento nos últimos dias. Tomás Antônio Gonzaga morreu em 9 de abril de 1812 e foi sepultado na Sé da Ilha de Moçambique, sendo seus ossos transportados, em 1835, para a Igreja de Cabaceira Grande e, em 1940, trazidos para o Brasil.
Em 10 de fevereiro de 1853, foi anunciada a morte de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Todas as irmandades, confrarias, autoridades civis, militares e religiosas e parte do povo formaram longas filas para se despedir da heroína dos poemas de Tomás Antônio Gonzaga.
A história dos dois apaixonados rendeu algumas lendas. Uma delas se refere ao suposto filho, Anacleto Queiroga, beneficiário do testamento de Marília. Até o escritor Adelto Gonçalves, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo, comete o engano de apontá-lo como sendo filho, embora sua obra se constitua na mais completa sobre Gonzaga. Na verdade, Anacleto era sobrinho de Marília, filho da sua irmã Emerenciana, que teve um relacionamento com um vizinho, comerciante português. Como, na época, um filho gerado nessas condições era desonra suficiente para destruir a vida de qualquer mulher, Marília, para ajudar a irmã, assumiu Anacleto como filho. E assim o fez por acreditar que o seu amor por Tomás Antônio Gonzaga fosse eterno e insubstituível, sem, no entanto, prever o fim trágico do romance, que impediu que se colocasse, no adro da Capela de N. Senhora dos Remédios de Cabaceira Grande, em Moçambique, o epitáfio que Gonzaga imaginara para si e sua amada: “Quem quiser ser feliz nos seus amores, siga os exemplos que nos deram estes”.
Anos mais tarde, a injustiça cometida contra o casal e os demais inconfidentes foi, de certa forma, reconhecida e remediada pelo governo brasileiro. Em 1936, Augusto de Lima Júnior conseguiu que Getúlio Vargas assinasse decreto permitindo repatriar os restos mortais dos inconfidentes mortos no degredo. A carta foi entregue ao estadista em território mineiro, na fazenda do deputado João Tostes, amigo do presidente e do escritor, em Juiz de Fora, que logo mandou chamar o governador Benedito Valadares e o ministro Gustavo Capanema para assistir ao ato histórico.
Em 1955, Lima Júnior terminaria sua tarefa, transferindo os restos mortais de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas para o Museu da Inconfidência, colocando-a, enfim, ao lado de seu grande amor. E nisso teve o apoio do governador Clóvis Salgado e do ministro da Educação, Cândido Mota Filho.