MINEIROS ILUSTRES DO SÉCULO XX
 

Minas marcou presença também no Século XX, através da participação ativa de seus filhos nos grandes acontecimentos do país, sejam artísticos, políticos ou sociais. Por isso, falar nos grandes mineiros da vida pública nos reporta a figuras que mereciam uma biografia própria. Como é o caso, por exemplo, do ex-presidente Juscelino Kubitschek ou do escritor Carlos Drummond de Andrade ou ainda do ex-jogador Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, eleito o melhor atleta do século XX. Assim sendo, listamos, a partir daqui, alguns mineiros e as áreas onde estes se destacaram, em lista incompleta, mas apenas de referência.

Na política:
Francisco Negrão de Lima —
Deputado constituinte em 1934, por Minas, chefiou o gabinete do mineiro Francisco Campos no Ministério da Justiça do Governo Vargas e, nessa condição, preparou o Estado Novo, em 1937, percorrendo o Brasil para conversar com os interventores estaduais. Por conta disso, ganhou o apelido de “correio do czar”. Foi embaixador do Brasil no Paraguai, onde fez tantas amizades que pôde voltar ao país vizinho, poucos anos depois, como pacificador de uma guerra civil. Exerceu também os cargos de secretário da Prefeitura do Rio – então Distrito Federal – e de ministro da Justiça no Governo Vargas de 1951, sendo o responsável pela instalação em Minas da Mannesmann, em cumprimento a promessa de Vargas. Chefiou a campanha e foi ministro das Relações Exteriores de JK em 1955, foi prefeito do Distrito Federal e governador da Guanabara – considerado, com Pereira Passos e o adversário Carlos Lacerda, um dos três maiores administradores da cidade. E não à toa. Negrão mudou o Rio ao duplicar a Avenida Atlântica em ousado projeto que afastou o mar mais de cem metros e contou com a ajuda do Laboratório de Engenharia Civil de Lisboa. Abriu os acessos à Barra da Tijuca, com seus elevados, construiu mais de 30 mil habitações populares e, assim, removeu favelas da zona sul da cidade. Foi embaixador do Brasil em Portugal, em momento delicado nas relações entre os dois países, quando o presidente Jânio Quadros votou contra a nação amiga na ONU, por discordar da questão ultramarina, que, aliás, o tempo mostrou que o Governo Salazar estava correto e protegia Angola e Moçambique da guerra civil, da fome e da situação com que os dois países dobraram o milênio. Negrão, apesar de eleito pela oposição ao regime militar, conviveu muito bem com os presidentes generais Castelo Branco, Costa e Silva e Médici. Enfim, um mineiro que fez carreira no Rio e teve presença internacional. Os portugueses o consideram, assim como dois outros mineiros, José Aparecido e Itamar Franco, um dos grandes amigos que o Brasil mandou para a Embaixada em Portugal. Seu irmão, Octacilio, foi grande prefeito de Belo Horizonte, deputado federal e homem de grande bravura cívica e pessoal.
Virgilio Alvim Mello Franco – Este é o que se pode chamar de “mineiro ilustre”. Pela família, tanto por parte de pai como de mãe, com atuação na política desde o Império, marcou presença na sociedade do Rio, tendo se casado com a filha do Conde Modesto Leal, Dulce, de prestigio e fortuna na capital. Seu pai, Afrânio, talvez tenha sido o diplomata mais influente no Itamarati, depois de Rio Branco. O avô materno, Cesário Alvim, governou Minas e foi Prefeito do Distrito Federal. Virgilio foi um dos chefes da UDN, mineira e nacional, partido que marcou a vida nacional de 46 até 64, quando, com a Revolução, chegou ao Poder através de seus melhores quadros. Mas esta presença no Poder não foi testemunhada por ele, que morreu em 1948, assassinado por um empregado em sua casa no Jardim Botânico, no Rio, com pouco mais de cinqüenta anos. Por mistérios do destino não foi Governador de Minas, especialmente quando Vargas escolheu Benedito Valadares. Foi revolucionário em 30, mas, de personalidade forte e convicções, acabou rompendo com Vargas. Virgilio era irmão de outros Mello Franco ilustres, como Afonso Arinos, deputado, senador e Chanceler; Afrânio e Caio, diplomatas como o pai; Maria do Carmo Nabuco, grande dama da sociedade, cultura e política; Anah, embaixatriz, casada com o cientista e diplomata Carlos Chagas Filho.
Foram ministros do período militar, entre outros ilustres udenistas, Bilac Pinto, Rondon Pacheco, Milton Campos, Magalhães Pinto, os vice-presidentes Pedro Aleixo e Aureliano Chaves, assim como José Bonifácio e Geraldo Freire, que presidiram a Câmara dos Deputados.
Sepúlveda Pertence — Nascido em 1937, é um dos grandes nomes que marcam a história recente. Em 1989, foi empossado ministro do Supremo Tribunal Federal e, em maio de 1991, ministro do Tribunal Superior Eleitoral. Esse mineiro construiu sua carreira de advogado e jurista de renome sempre em sintonia com as grandes transformações sociais e políticas que o país tem atravessado. No seu período de secundarista e universitário, dedicou-se intensamente ao movimento estudantil, responsável, na época, por históricas campanhas em defesa dos interesses nacionais. Foi um sincero militante de esquerda.
Oscar Dias Correa — Mineiro de Itaúna, nascido em 1o de fevereiro de 1921, construiu uma das mais completas carreiras de homem público, jurista e intelectual. Fez toda sua trajetória na UDN, partido que se opunha ao PSD. Foi assessor de gabinete de João Franzen de Lima, jurista e udenista, quando esse exerceu a Secretaria de Finanças no Governo Mílton Campos. Em 1947, já se elegia deputado estadual, brilhando nos trabalhos da Constituição estadual. Depois de dois mandatos, foi para a Câmara Federal, onde logo se igualou aos veteranos e talentosos companheiros de partido, como Afonso Arinos, Pedro Aleixo, José Monteiro de Castro e Bilac Pinto, entre outros. No Governo Magalhães Pinto, foi secretário de Educação, lembrado entre os mais atuantes. Abandonou a política triste com a extinção dos partidos pelo Ato Institucional nº II, do presidente Castelo Branco. Dedicou-se à cátedra e ao seu escritório, até ser escolhido para o Supremo Tribunal Federal. Aposentado, foi ministro da Justiça no Governo José Sarney, seu antigo companheiro de UDN, e eleito para a Academia Brasileira de Letras. Seu filho, Oscar Júnior, foi deputado estadual e federal, mas, ao perder a eleição para governador, em 1990, resolveu deixar a política. Na primeira eleição do novo milênio, o filho de Júnior, Gustavo, assumiu a responsabilidade de uma terceira geração estar na política mineira. Aliás, Gustavo é neto, pelo lado materno, de Gilberto Faria, que foi deputado federal e banqueiro, filho de Clemente Faria, o grande fundador do Banco da Lavoura, depois dividido pelos filhos em Real e Bandeirantes.
O assistente por vinte anos de Oscar Correa na cátedra da UERJ foi o professor Antônio Celso Alves Pereira, mineiro de Peçanha, excelente romancista, que chegou a reitor da UERJ e diretor da Faculdade de Direito.
José Maria Alkmim — Deputado federal de muito prestígio, do PSD, foi ministro da Fazenda do Governo JK, vice do presidente Castelo Branco e secretário de Educação do Governo Israel Pinheiro. Divide com Antônio Carlos de Andrada a maioria das histórias que formam o rico folclore político de Minas Gerais, objeto de mais de um livro do jornalista Sebastião Nery, baiano, que viveu em Belo Horizonte, onde inclusive fez política. Alkmim dedicou parte de sua vida à Santa Casa da Misericórdia de Belo Horizonte.
Um de seus filhos, Leonardo, casou-se com Teresa, filha de Assis Chateaubriand.
Pedro Aleixo — Foi vice do presidente Arthur da Costa e Silva – mas não assumiu quando da doença e morte do presidente, o que foi feito por uma Junta Militar, em controvertido episódio da nossa História. Grande advogado, expoente da UDN, presidia a Câmara em 1937, quando da decretação do Estado Novo. Foi ainda diretor do jornal Diário da Manhã que, comprado por Assis Chateaubriand, viria a ser o Estado de Minas. Sua filha, Heloísa Aleixo Lustosa, destacou-se como diretora do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e depois como diretora do Museu Nacional de Belas-Artes, incluindo o Brasil no roteiro das grandes exposições.
Foi Ministro da Educação do Governo Castelo Branco.
José Hugo Castelo Branco — Talentoso advogado, que fez sucesso e fortuna no Rio ao lado de Santiago Dantas e depois no grupo cimenteiro Pereira da Silva, começou a vida pública como vereador em Lavras. Como deputado estadual pelo PTB, ligou-se a Santiago Dantas, ilustre advogado nascido e com escritório no Rio, eleito deputado federal em 1958 por Minas, a pedido do então vice-presidente João Goulart ao presidente do PTB mineiro, Camilo Nogueira da Gama. Considerado uma das grandes cabeças do Brasil no seu tempo, Santiago morreu com cinqüenta e um anos, no auge da carreira. Com o AI-5, em 1968, José Hugo Castelo Branco achou mais prudente suspender a carreira política e foi para o Rio advogar e penetrar no mundo dos negócios. Em 1982, a pedido de Tancredo Neves, voltou a Minas para garantir o apoio do PTB a Tancredo. Torna-se, então, o homem forte do governo estadual e principal articulador da candidatura presidencial do governador. Este eleito, José Hugo é indicado para a Casa Civil do Planalto, cargo que exerceu no Governo José Sarney, até ser transferido para o Ministério da Indústria e do Comércio. Estava aberto o caminho para o Palácio da Liberdade, quando o destino o atropelou com uma doença incurável, cruel e rápida. Morreu no alto cargo de ministro de Estado. Enfrentou a adversidade com elegância, coragem e fé. Foi casado com Olenka Andrade, de família tradicional mineira, com grande presença no mundo jurídico nacional.

José Aparecido de Oliveira

José Aparecido de Oliveira — Jornalista, político, homem de cultura, marcou com sua presença mais de meio século da História de Minas e do Brasil. Foi homem de confiança, respeitado e ouvido por pelo menos três presidentes – Jânio, de quem foi secretário particular e fez parte da equipe com amigos do porte de Carlos Castelo Branco; Sarney, de quem foi ministro da Cultura e governador de Brasília, e Itamar, de quem foi embaixador em Portugal e chanceler nomeado. Ganhou dimensão com a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, foi amigo fraterno do presidente português Mário Soares, um grande amigo de Minas e do Brasil. Seu nome é sempre associado à lealdade, generosidade e amizade. Como grande protetor e incentivador das coisas relacionadas à cultura e ao patrimônio histórico de Minas, tem seu nome entre os grandes de seu tempo. Tendo perdido o mandato e os direitos políticos em 64, quando retornou à Câmara, em 82, foi com grande votação e especialmente na qualidade de parlamentar votado em maior número de municípios. Magalhães Pinto o tinha como um filho, tais a afeição e a admiração que os unia, apesar de por vezes terem trilhado caminhos diferentes na vida pública. Seu filho, José Fernando, o mais jovem prefeito de Minas em 2000, é seu herdeiro político. A filha, Cecília, secretariou o governador Itamar Franco e a mulher Leonor, além de ter sido das grandes embaixatrizes do Brasil em Portugal, companheira de todas as horas, dedicou parte de seu tempo à criação de cooperativas para elevar o padrão de vida da mulher mineira do interior, no incentivo ao artesanato artístico e gastronômico.
Francisco Neves Dornelles — O sobrinho de Tancredo nasceu em São João del-Rei. Foi ministro, no Governo Sarney, e ministro da Indústria e do Comércio e do Trabalho e Emprego, no Governo Fernando Henrique. Deputado federal entre os mais votados do Rio desde a Constituinte, Dornelles nunca perdeu a ligação com suas raízes, nem deixou de agir dentro das normas políticas de Minas Gerais, o que lhe garantiu o sucesso no Estado do Rio.
Orozimbo Nonato — De família modesta, Orozimbo enfrentou muitas dificuldades para terminar seus estudos. Diplomado em direito, foi promotor de justiça e juiz municipal, no interior do Estado. Em pouco tempo, destacou-se entre os melhores advogados de Belo Horizonte, tendo sido advogado do então Banco da Lavoura de Minas Gerais. Foi ainda advogado-geral do Estado, desembargador da Corte de Apelação de Minas Gerais e ministro do Supremo Tribunal Federal. Em 1960, aposentou-se para permanecer no Rio de Janeiro, tendo aberto escritório com Theophilo de Azeredo Santos, professor e advogado que viria a se destacar como dirigente da Federação dos Bancos. Nesse escritório figurava também BeneditoValadares, que era acusado de ser pouco letrado, mas representava um homem inteligente, intuitivo e estudioso. Gostava do convívio com intelectuais, sendo que, no Senado, teve como assessor Antônio Olinto, o consagrado autor de A Casa d’Água, entre outros livros de sucesso internacional.
Ibrahim Abi-Ackel — Jornalista, advogado e orador brilhante, foi um parlamentar atuante, em repetidos mandatos, e ministro da Justiça, entre 1983 e 1986. Sofreu implacável campanha por parte das esquerdas, mas sobreviveu pela coragem e a coerência. Sabe cultivar uma das artes mineiras, que é a da boa conversa. Possui uma apreciada biblioteca em Belo Horizonte. Embora parlamentar muito atuante e conceituado, é pouco noticiado pelo boicote das chamadas patrulhas ideológicas.
Pio Canedo — Foi um caso interessante, embora comum em Minas – o político de importância estadual que jamais desejou chegar ao plano federal. Pertencente a uma família de políticos, foi dos grandes presidentes da Assembléia Legislativa, mas ficou sempre em Minas, onde chegou a vice-governador, com Israel Pinheiro. Seu sobrinho Ronaldo, que o sucedeu, é quem foi deputado federal, pela Arena. Pio deixou um belíssimo depoimento que a Assembléia mineira publicou. A familia permaneceu na política, depois, através de Cristiano Canedo, na Assembléia Legislativa.
José Santana de Vasconcelos — Foi um recordista em mandatos continuados. Primeiro na Assembléia Legislativa, que chegou a presidir, depois na Câmara dos Deputados, onde se tornou dos mais conhecidos e estimados pelos seus colegas.
Mílton Reis — A vocação e a paixão são marcas dos políticos mineiros. Muitos passaram a vida em torno desta atividade. Mílton Reis, por exemplo, que começou muito jovem, tão logo recuperou seus direitos políticos, voltou à Câmara dos Deputados e se tornou peça fundamental na Constituinte de 88, liderando o bloco denominado “centrão”, que impediu maiores aberrações na Carta influenciada pela demagogia e pressão das esquerdas. Mílton Reis é ainda uma prova do dominó nos entrelaçamentos familiares da política mineira. Casou-se com Marina, neta do grande empresário Manoel Ferreira Guimarães – que chegou a presidir a Associação Comercial do Rio de Janeiro – e filha de Geraldo Mascarenhas, deputado federal do PTB, muito ligado a Vargas. Seu irmão – dela, Marina – Eduardo Mascarenhas, grande psicanalista, assumiu a paixão política e foi eleito deputado federal pelo Rio, onde manteve forte presença na imprensa e no meio intelectual, tendo publicado mais de uma dezena de livros. Eduardo casou-se com Ana Lúcia, filha de Magalhães Pinto, com quem teve duas filhas. Depois de divorciados, Ana Lúcia se casou com Paulo Henrique, filho de Fernando Henrique Cardoso, com quem teve duas filhas. Mílton Reis é empresário de comunicação no sul do Estado.

No direito:
Com relação aos juristas mineiros, a lista é grande e de dimensão nacional. Pelo Supremo Tribunal Federal, por exemplo, passaram: Victor Nunes Leal, que foi também consultor-geral da República e chefe da Casa Civil de JK; Nelson Hungria; Carlos Veloso, Edmundo Lins; Carlos Medeiros da Silva; Antônio Carlos Lafayette de Andrada; João Luís Alves; Antônio Martins Villas-Boas; Bilac Pinto; Décio Miranda; Antônio Néder e Rocha Lagoa.
Bilac Pinto foi deputado da UDN, líder da bancada, dirigiu por muitos anos a Editora Forense, tendo depois chegado ao Supremo e a embaixador do Brasil na França. Sua filha Regina, além de dirigir uma livraria e uma editora, exerceu dois mandatos no Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro, na representação classista, em nome do Sindicato dos Editores. Muito presente, Regina Bilac Pinto foi diretora do Museu de Arte Moderna.

Outro exemplo de famílias integradas ao direito é o de Dilermando Cruz, o pai, fundador da Academia Mineira de Letras, advogado militante, cujo irmão, Manoel Martins da Costa Cruz, foi um típico e reconhecido advogado do interior, o que o levou a publicar um interessante livro denominado Um Advogado da Roça. Seus filhos, notáveis, como o desembargador no Rio, Elmano Cruz; Nonato, que morreu muito jovem, mas deixou um filho, Dilermando Nonato, para prosseguir a tradição da família ilustre em Juiz de Fora, Minas e no Brasil.
Dilermando Cruz, o filho, médico, jornalista, foi influente político, prefeito de Juiz de Fora, ocupando vários cargos públicos e desempenhando com talento mandatos sucessivos na Câmara dos Deputados. Outro político brilhante e advogado em Juiz de Fora, além de professor, foi Abel Rafael Pinto, fluminense de nascimento, mas de vida pública mineira. Foi um dos principais opositores ao Governo Goulart e colaborou com os preparativos da Revolução de 64.
Entre os juristas que seguiram carreira acadêmica, sempre com a política presente, atuando como professores, vale citar os mineiros João Franzen de Lima, que também foi prefeito de Belo Horizonte, assim como o grande criminalista Amintas de Barros; Caio Mário da Silva Pereira; Darcy Bessone – cujo filho Leopoldo foi deputado federal por sucessivos mandatos, secretário de Estado e ministro no Governo Sarney; e Raul Machado Horta, genro de Mílton Campos, que obteve projeção nacional como constitucionalista.
Figura impressionante, que não se sabe se deve ser incluído entre juristas, professores, políticos ou jornalistas, foi João Franzen de Lima, prefeito de Belo Horizonte e diretor do jornal católico O Diário, que conseguia fazer oposição ao Governo Vargas em pleno Estado Novo. Só perdeu o cargo de editor-chefe quando assinou o Manifesto dos Mineiros. Foi professor de direito e autor de inúmeros livros jurídicos, reeditados e de referência. João Franzen era cunhado de Christiano e de Aníbal Machado. Um de seus filhos, Bernardino, fundador do Partido Socialista Brasileiro em Minas, morreu muito cedo, deixando cinco filhas que, já no Rio de Janeiro, se revelaram pelo talento como jornalistas – Andrea e Ester; livreiras – Thaís e Elza e consultora cultural, Renata.
Merecem destaque ainda os advogados Aristóteles Atheniense; José Murilo Procópio de Carvalho; João Pimenta da Veiga, cujo filho, também advogado, foi prefeito de BH, deputado federal e ministro de Estado; Arduíno Bolívar, entre outros.
José de Castro Ferreira, advogado em Juiz de Fora, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, que foi consultor-geral da República no Governo Itamar Franco, conciliou as duas paixões de sua vida, o direito e a política. José de Castro foi deputado estadual, líder do PTB, e não assumiu como deputado federal por ter sido atingido pelo AI-5, quando se dirigia para Brasília, em 1969. Seu trabalho na campanha de 98 permitiu que, em Minas, Itamar fosse eleito e Fernando Henrique vencesse, ao criar um comitê independente. Atuou sempre ao lado de José Aparecido de Oliveira, personalidade que mais influiu em sua geração em Minas Gerais.

No jornalismo:
Essa área foi tão fecunda em Minas que serviu até mesmo para os que nasceram em outros estados como alavanca profissional. Foi o caso, por exemplo, dos jornalistas Carlos Castelo Branco e Sebastião Nery. Entre os mineiros natos mesmo, temos nomes como Geraldo Teixeira da Costa, que dirigiu o Estado de Minas e demais empresas do grupo por muitos anos e, talvez, tenha sido o mais importante e influente jornalista e dirigente de empresa de comunicação do estado; Nei Octaviani Bernis, diretor dos Associados em Minas por décadas, foi vereador na capital e considerado um dos udenistas históricos do Estado; Celso de Melo Azevedo, prefeito de Belo Horizonte, presidente da CEMIG e diretor do Diário Católico, jornal que circulou até o final da década de 60. Deve-se lembrar de figuras atuantes como Ênio Fonseca, Ponce de Leon, Nélson Boechat Cunha, Lourdes Boechat, Acílio Lara Resende, Guy de Almeida, Olbiano de Melo, também grande líder integralista de Teófilo Ottoni e depois diretor do jornal do movimento no Rio, João Bosco Martins Sales, Ivan Vasconcelos Barros, Jofre Alves e seu filho Humberto, Oséas Carvalho, Fernando Telles, Luiz Carlos e, Antônio Telles, Geraldo Magalhães, Virgílio de Castro Veado, Roberto Elísio, Carlos Lindenberg, Fábio Doyle, sua filha Tânia e o filho Fábio Jr., ela correspondente em Paris da Tribuna da Imprensa, do Rio, e Carlos Herculano Lopes, que faz parte do grupo que atua no jornalismo e na literatura com igual sucesso.
Referência marcante ao longo de mais de meio século de intensa atividade foi Wilson Frade, o grande colunista de Minas. O colunismo, aliás, foi muito ativo, em Minas, a partir de 1950, representado por Odin Andrade; José Maurício; Paulo César de Oliveira; Ana Marina; José Lopes; Mário Fontana, sucessor natural de Wilson Frade, de quem foi o segundo no Caderno de Turismo do Estado de Minas por tantos anos; Kátia Lage, César Romero, Eduardo Curi, entre outros. PCO e Curi se destacaram ainda na promoção de eventos beneficentes. A promoção “Melhores de Minas”, que Paulo César de Oliveira instituiu, primeiro como editor do Caderno Fim de Semana do Estado de Minas e, depois, como editor do Caderno Domingo, do Hoje em Dia, revelou a Minas e ao Brasil alguns nomes que vieram a ganhar grande dimensão. Entre eles, vale citar Paulo Paiva – que foi ministro do Trabalho; Salim Mattar – fez da Localiza a maior empresa locadora de automóveis do Brasil; Clésio Andrade – que veio a presidir a Confederação Nacional dos Transportes e Lúcio Costa – criador da grande empresa Suggar.
Dênio Moreira de Carvalho, que trocou a televisão pela política e teve presença brilhante como deputado estadual e secretário do Interior, morreu muito cedo, interrompendo uma carreira respeitada e admirada.
José Goes e Miro Sopeña são dois fotógrafos que marcaram Belo Horizonte entre os anos sessenta e noventa. José Goes formou o maior arquivo fotográfico de Minas, muito usado quando do centenário de JK, por exemplo. Foram sucedidos por Tião Mourão e Sílvio Coutinho.
Não se pode falar na imprensa mineira do Século XX sem citar Januário Carneiro, que revolucionou o rádio com a criação da Rádio Itatiaia, a primeira no destaque para o jornalismo quase que em tempo integral, o que veio a ser consagrado muitos anos depois pelo Sistema Globo, com a CBN. Januário era homem arrojado, chegou a ter uma televisão – a Del Rei, foi retransmissor da Globo no norte de Minas e assumiu por algum tempo o Diário de Minas. A cobertura do esporte, em particular do futebol, era o seu forte e consolidou a rádio como líder de audiência. Canor Simões Coelho, foi, entretanto, o jornalista mineiro ligado ao esporte, em particular ao futebol, de maior projeção nacional, como principal repórter dos Associados. Canor era de tradicional família de São João del-Rei.
Nos colunistas de interior destacam-se Teodomiro Paulino, de Montes Claros, e Márcio Bertola, de Barbacena, este, com presença no “Estado de Minas” além da imprensa local, especialmente com grande atuação na preservação do patrimônio artístico de sua cidade, a começar pelas obras de Emeric Marcier. Paulo Navarro, que começou na TV e se firmou no colunismo diário, no jornal “O Tempo”
Nirlando Beirão, jornalista de projeção nacional, editor de importantes revistas, não só nasceu e iniciou a carreira em Minas, filho de político, de quem herdou o nome e a vocação, como manteve os vínculos com a maneira mineira de ser. Francisco “Chico” Pinheiro- foi da Tv Bandeirantes e passou para a Globo em São Paulo, reforçando o grupo de mineiros com forte influência no jornalismo paulista.
A mais importante – e marcante – colunista do Brasil, assinando uma página aos sábados, em O GLOBO, foi Nina Chaves, que passou a se assinar Chavs depois de divorciada – nascida em Minas. Alécio Cunha, um correto repórter de excelente texto, tornou-se uma referência na reportagem voltada para a área de cultura, atuando no Hoje em Dia, dirigido por Carlos Lindenberg.
Na lista dos jornalistas que, nascidos em Minas, fizeram carreira no Rio, Brasília e em São Paulo, estão Ziraldo Alves Pinto, que é também notável como cartunista e escritor; Luís Nassif; Wilson Figueiredo; Villas-Boas Correa, cujo pai foi grande magistrado e o filho, Marcos, grande jornalista no Rio; Carmo Chagas; Carlos Chagas; Pedro Rogério Moreira; Paulo Vial Correa; Álvaro Pereira, o deputado federal Fernando Gabeira – esse participou da luta armada e esteve entre os seqüestradores do embaixador dos EUA no Brasil – voltando com a anistia e ingressando na política; Alberico Sousa Cruz; Fernando Zerlottini – que foi durante muitos anos o Swann de O Globo e depois passou para o Jornal do Commercio; Hildegard Angel – filha de Zuzu Angel, mineira que se tornou conhecida internacionalmente como estilista e por sua luta para ver esclarecido o desaparecimento de seu filho Stuart; Lucas Mendes, correspondente em Nova York da Rede Globo; o repórter Hélio Costa, que se elegeu mais de uma vez deputado federal e disputou por duas o governo de Minas, projetou-se inicialmente como correspondente da Rede Globo nos EUA. Beth Lima, da Rede Globo em Londres, é outra mineira vitoriosa.

Milton Lucca

Brasília também recebeu alguns mineiros que se destacaram no jornalismo. Exemplos: Gilberto Amaral, colunista do Correio Brasiliense por mais de 30 anos; Pedro Rogério Moreira e Álvaro Pereira, como repórteres de televisão; Sérvulo Tavares; e Carlos Chagas, que depois de ser editor de política de O Globo nos anos 60 e assessor de imprensa do presidente Costa e Silva, mudou-se para Brasília, em 1970, para dirigir a sucursal do Estado de S. Paulo e, posteriormente, a Rede Manchete.
Muitos desses jornalistas atuaram também como assessores de governadores, função que sempre foi equivalente à de secretário de Estado, como José Geraldo Bandeira de Melo, Manoel Fagundes Murta, J. D. Vital, Roberto Elísio, Carlos Lindenberg, Leonardo Fulgêncio e Mílton Lucca de Paula.
Mílton Lucca de Paula trabalhou com Bias Fortes, Israel Pinheiro e Ozanan Coelho, foi redator político do Estado de Minas e dirigente, em várias diretorias, da Associação Mineira de Rádio e Televisão, na qualidade de dono da Rádio Difusora, de Ouro Fino. Mílton serviu no gabinete do então primeiro-ministro Tancredo Neves.
Teódulo Pereira, diretor do Estado de Minas, que presidiu a Câmara Municipal de Ouro Preto, também foi personagem da capital mineira.
Mas outros ainda começaram no jornalismo e acabaram empresários e executivos de sucesso, como José Oswaldo Araújo, que foi prefeito de Belo Horizonte e um dos principais banqueiros de Minas e do Brasil, proprietário durante algum tempo do Diário de Minas, ou Hermógenes Ladeira, que, depois de dirigir a sucursal mineira do Última Hora, fundou uma cervejaria, vendeu-a para a Antarctica e ficou presidindo a empresa em Minas, além de ter uma passagem no setor público como presidente da Embratur.
Outro que sempre teve uma vida empresarial com presença na imprensa, na literatura, na participação política, é Hindenburgo Pereira Diniz, primo de Assis Chateaubriand, paraibano, portanto, mas de toda uma vida em Minas. Foi genro de Israel Pinheiro, fundou empresas, participou de conselhos, presidiu o Conselho Consultivo dos Diários Associados e assinou artigos de opinião e estudos na página nobre do Estado de Minas.
Humberto Mota é mais um exemplo. De jornalista passou a executivo do Grupo Brascan, no Rio de Janeiro, conselheiro de grandes empresas como as Casas Sendas, e presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro e do seu Conselho Superior. Humberto, que no passado foi do Estado de Minas e da revista Visão, em 2000 aceitou convite de Fernando Barbosa Lima para atuar como comentarista e entrevistador da Rede Brasil. Ganhou grande prestígio no Rio, mantendo o vínculo permanente com Minas e sua terra natal, Minas Novas. Em 2002 foi nomeado pelo Presidente Fernando Henrique para a presidência dos Correios, retomando a vocação para a vida publica inerrompida quando da opção pela carreira empresarial na Brascan.
Joaquim Ferreira de Sales, deputado por vários mandatos, jornalista no Rio e notável como memorialista nas primeiras décadas do século – no nível de Pedro Nava e Pinheiro Chagas, estudou no Caraça e foi seminarista em Petrópolis e Paris, ocasião em que foi recebido pela Princesa Isabel com outros seminaristas mineiros e ouviu da grande regente que “Minas é um celeiro de notáveis e de vocações”. Foi grande amigo de José do Patrocínio, tendo dele ouvido palavras de arrependimento pela campanha republicana.

Na cultura:
Aníbal Machado —
Nascido em 1894, destacou-se entre os grandes mestres da literatura brasileira. Diplomou-se em direito pela Faculdade de Belo Horizonte e foi professor de português no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Trabalhou ainda no Diário de Minas, ao lado do escritor Carlos Drummond de Andrade e de João Alphonsus. Como roteirista e crítico de artes plásticas, ajudou a fundar vários grupos de teatro, como “Os Comediantes”, “O Teatro Experimental do Negro”, “Teatro Popular Brasileiro” e “O Tablado” – sendo esse último iniciativa da sua filha, Maria Clara Machado. A obra desse ilustre mineiro sobressai pelo ineditismo da concepção estilística, em que se fundem os discursos lógicos da prosa e o do lirismo, no estilo discreto de toda a vida, em todos os sentidos. Faleceu, no Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1964. Seu irmão Christiano foi candidato à Presidência da República em 1950. Mas Aníbal, de forma correta e clara, sem prejuízo da estima pelo irmão, não participou da campanha de vez que o seu partido, o Comunista, estava na ilegalidade e não apoiava o candidato do conservador PSD.
Aníbal Machado apenas encabeça uma lista que conta com dezenas de intelectuais mineiros. O destaque é por ter tido importância, mas sem nunca perder a simplicidade e a modéstia que marcam os mineiros de antigamente. Só para lembrar: Carlos Drummond de Andrade; Pedro Nava; Abgar Renault; Fernando Sabino; Paulo Mendes Campos; Darci Ribeiro; Alphonsus de Guimaraens, pai e filho; Guimarães Rosa; Mário Palmério; Geraldo França de Lima; Antônio Olinto; Mário de Lima; Ivan Lins; Pedro Lessa; João Luís Alves; Augusto de Lima; Hélio Lobo; Fernando de Azevedo; Dom Marcos Barbosa; Afonso Arinos de Melo Franco e seu filho diplomata e também “imortal”; Dom Silvério Gomes Pimenta; Silva Melo; Ivo Pitangui; Lafayette Rodrigues Pereira; Júlio Ribeiro; Garcia Redondo; Cyro dos Anjos; Sábato Magaldi; Afonso Pena Júnior; Otto Lara Resende; Ary Barroso, notável compositor popular, autor de Aquarela do Brasil; o cineasta Humberto Mauro; Adélia Prado; Affonso Romano de Sant’Anna; Waldemar de Almeida Barbosa; João Camilo de Oliveira Torres; Francisco Iglésias; professor emérito Aluísio Pimenta; Vítor Magalhães Figueira; Zora Seljan; Vera Filizzola; Murilo Mendes; Otávio Melo Alvarenga; Maria José Queiroz; Henriqueta Lisboa; o consolidador da Academia Mineira de Letras, Vivaldi Moreira; Eduardo Reis; Roberto Drummond; Délcio Monteiro de Lima; e Alberto Santos Dumont, que foi eleito para a Academia Brasileira de Letras sem ter sido candidato, em acontecimento inédito na Casa de Machado de Assis. Como demorou a tomar posse, morreu sem assumir.

Minas não apenas forneceu e continua a fornecer ao Brasil muitos escritores, poetas, intelectuais em geral, mas é onde se cultiva o livro, com muitas bibliotecas particulares de grande valor, assim como as públicas. O deputado estadual Amílcar Martins – de família com tradição na política e na sociedade mineira – criou a Fundação “Amílcar Martins”, para a guarda da maior coleção de livros sobre Minas e os mineiros, que constituem a biblioteca de seu pai. A Prefeitura de Belo Horizonte doou um local para a biblioteca. Certamente o mais importante instrumento de pesquisa sobre a história de Minas Gerais. As casas de livros antigos são da melhor qualidade, como o tradicional Amadeu, no centro, e a Buquinar, na Savassi.
Bernardo Guimarães foi um cronista de seu tempo, nasceu em 1825 e morreu em 1884, com texto de fácil leitura, o que era raro na época. Escreveu o Escrava Isaura, romance que se tornou mundialmente conhecido depois da novela da Rede Globo. Combateu o celibato clerical. Foi figura marcante como intelectual, polêmico.
Muitos da geração pós-guerra vieram a se destacar e ganhar projeção nacional, empurrados pela boa vontade da mídia em exaltar opositores do chamado período militar. Mas esses personagens, ativistas, artistas, intelectuais, militantes ou funcionários de entidades não-governamentais, não se enquadram bem no que consideramos o espírito de mineiridade, conforme definido por Oscar Correa e que vai no início deste livro.

Nas artes plásticas:
Tiradentes se tornou um referencial na área da pintura moderna, abrigando artistas nascidos fora de Minas, mas que, a exemplo de Guignard, podem ser considerados artistas mineiros, como Lyria Palombini, João Batista Canto, Mário Mendonça, Demóstenes Varas, este ultimo mineiro, seguiram o exemplo da gravurista Lótus Lobo.
Aqui, citamos Alberto da Veiga Guignard; Carlos Bracher; Bax; Inimá de Paula; Yara Tupinambá; Lígia Clark (neta de Edmundo Lins); Regina Albergaria; Jarbas Juarez; Celso Renato de Lima, que, com Amílcar de Castro, é considerado fundador da arte contemporânea mineira; Renato de Lima; Aníbal Matos; Genesco Murta; Paulo Laender e Mônica Sartori.
Personalidade fascinante, artista no sentido mais amplo, atuando no mobiliário, na decoração, na pintura de prédios com combinações especiais, na restauração de casas, fazendas históricas, no trato com a madeira, foi Isaura Kallas, cujo atelier em Nova Lima foi uma central de bom gosto. Morreu jovem na virada do milênio.

Cópia de publicação referente à exposição de Celso Renato, um dos criadores da Arte Moderna em Minas.

O nome mineiro de dimensão internacional, entretanto, no Século XX, é o de Maria Martins, nascida em Campanha, que ganhou o mundo como mulher do diplomata Carlos Martins; marcou época na sociedade e nas artes plásticas, sendo escultora das mais importantes ligadas ao movimento surrealista. Tem obras em alguns dos mais importantes museus e coleções do mundo, inclusive no Metropolitan de Nova York.

No futebol:
Nessa área, merecem destaque Edson Arantes do Nascimento, o Pelé; o médico Eduardo Gonçalves de Andrade, ou simplesmente Tostão; Dario, o Dadá Maravilha. Piazza, campeão do mundo, acabou fazendo carreira na política.

Na moda:
Niguém mais representou a força da mulher mineira do que Zuzu Angel, o primeiro nome da moda brasileira a ganhar dimensão internacional. Hoje empresta seu nome à instituição no Rio de Janeiro de divulgação da moda.
Personalidade forte, com coragem, empreendedora, criativa, foi destaque no decisivo e exclusivo mercado de Nova York. Casou-se com o norte-americano Norman Angel Jones – pai de seus filhos Cristina, Hildegard e Stuart – que se tornou mineiro por adoção, mesmo depois de separados. Viveu em Matias Barbosa, dedicando-se a obras sociais nos seus últimos 15 anos de vida.
A Zuzu, que ganhou o mundo, dividiu desfiles em Nova York com nomes consagrados como Valentino, Bill Blass e Saint-Laurent, teve coleção vendida na sofisticada Saks Fifth Avenue, na Lord & Tailors. Entre outros fatos de repercussão internacional, era uma mulher alegre, divertida, generosa, carismática. Admirava JK, possivelmente por ser tão parecida com o grande estadista mineiro, no entusiasmo, na capacidade de empreender.
Zuzu, com tanto dinamismo, nunca deixou de ser a mineira dedicada aos filhos, com carinho e muito diálogo. Era amiga de todos e de seus amigos também. Mas o destino lhe reservou o drama de ver o filho, tão amado, desaparecido em meio à luta armada, ao que se sabe morto dentro de estabelecimento militar. Virou um gigante na busca do corpo do filho – e depois da nora, mobilizando personalidades nacionais e internacionais. Foi a mãe, a mulher sofrida que lutou brava e apaixonadamente.
Sua luta ficou conhecida, virou livros, reportagens, filmes, justamente por ser a Zuzu quem era, longe de ter sido uma militante de esquerda. Pelo contrário, defendia a democracia, a liberdade de ir e de vir, respeitava a propriedade, amava a beleza, vivia o mundo da mulher livre, sem nada a ver com o modelo defendido pelas esquerdas em seus então templos como Cuba e a Cortina de Ferro. Zuzu era a luz da liberdade de criar, de protestar.
Merece ser sempre lembrada pelo sucesso, pela criatividade, pela personalidade e também pela luta da mãe inconformada.
O Instituto Zuzu Angel editou uma publicação – “Zuzu Angel, a Força do Anjo”, onde fomos buscar depoimentos de mineiros ilustres, que a admiravam e estimavam por ser ela quem era e não por mera oposição aos militares.
Heloísa Aleixo Lustosa, ao apresentar uma exposição no Museu Nacional de Belas-Artes, disse que Zuzu “mostrou ao mundo toda a exuberância de nossas cores, todas a alegria e diversidade da artesania brasileira incorporada às nossas criações”.
Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior, afirmou: “Conheci uma Zuzu pelos jornais: a criadora de moda, cheia de inventividade, que levou o nome do Brasil ao estrangeiro, pela graça e estilo original de seu trabalho.
Conheci outra Zuzu Angel, por assim dizer num relâmpago, bastante para dar a dimensão do admirável ser humano que ela foi – a mulher forte que a dor e a sede cristã de justiça elevaram a um alto grau de bravura e beleza moral. As duas, numa só imagem, merecem ser lembradas com respeito e ternura”.
E José Aparecido de Oliveira também depõe: “Uma das mulheres mais importantes e impressionantes de seu tempo. Singular. Sensibilidade e talento. A criação, para ela, era um ato que não se esgotava na sua arte. Daquelas mulheres fortes de que fala a Bíblia”.
Elke Maravilha, mineira de Nova Lima, lembrou que “pessoa muito forte que sabia ser muito amiga e muito inimiga, muito atuante, muito tudo”.
Sua filha, jornalista de talento e prestígio, Hildegard Angel Bogossian, é cultora da memória da mãe e dirige o Instituto Zuzu Angel. É herdeira de sua energia, coragem e da capacidade de exercer a amizade com generosidade e grandeza. Seu filho, João Pedro, foi batizado em Coronel Pacheco, na histórica Fazenda Fortaleza de Sant’Ana, numa reafirmação de seu compromisso com a mineiridade. Passou a comemorar seu aniversario em setembro, em Tiradentes, acompanhado de dezenas de amigos fiéis.