INCONFIDÊNCIA MINEIRA
 

Minas constituía um cenário movimentado, onde a religiosidade dos aventureiros contrastava com a busca incessante do enriquecimento, através do ouro e do diamante, e, dessa forma, rapidamente, tornou-se uma sociedade requintada, erguendo solares e fixando latifúndios na nova terra. O ouro continuava a sair da terra às toneladas e despertando a cobiça de todos.
O fisco sentiu o déficit nas arrecadações. Falava-se em decadência das minas, mas a riqueza que se via em todo lado parecia desmentir o que mostrava o decréscimo das rendas reais. O ambiente político se identificava com o literário; e toda a Capitania sentia os primeiros sintomas do declínio do ouro.
Na segunda metade do século, Vila Rica, com seus 30 mil habitantes, configurava uma esplêndida civilização. No entanto, a desorganização administrativa, as extorsões do fisco começavam a desorientar todos. A dívida com a Coroa portuguesa crescia – e com ela a revolta. A idéia da independência do Brasil já se esboçava.
Conspirava-se em toda parte. Os intelectuais da Capitania sonhavam com a liberdade e a criação de uma pátria nova, altiva e próspera. Vila Rica tramava nos salões e nos casebres. Na casa de Cláudio Manoel da Costa, que havia pouco deixara os cargos de secretário do Governo e procurador da Real Fazenda, reuniam-se os intelectuais que coordenavam o sonho da independência brasileira.

Tiradentes (Publicado em "Pequena História da Inconfidência de Minas Gerais").

Por volta de 1780, ainda era evidente o desgaste da relação entre o Brasil e Portugal. A política adotada pela Coroa portuguesa de um rigoroso controle fiscal e a cobrança de pesados impostos culminou em alguns trágicos acontecimentos, como a Guerra dos Emboabas, nome com o qual os paulistas se referiam aos portugueses.
Com o esgotamento progressivo do minério nas Minas, tornava-se cada vez mais difícil para a população atender as exigências de Portugal. A elite mandava seus filhos estudar nas universidades européias e esses voltavam influenciados pela Revolução Francesa e pela independência dos Estados Unidos.
Os poetas, intelectuais e pensadores da época se reuniam para coordenarem o sonho de liberdade. Dentre os primeiros nomes que começaram a definir o movimento, que, iniciado em Minas, se estenderia por todo o Brasil, estão: Cláudio Manoel da Costa, poeta consagrado desde os bancos da Universidade de Coimbra; Tomás Antônio Gonzaga, ouvidor de Vila Rica; Luís Vieira, cônego maranhense; o alferes Joaquim José da Silva Xavier, apelidado de Tiradentes, que defendia a tese de que “se todos quisessem, poderíamos fazer do Brasil uma grande nação”; e Inácio José de Alvarenga, antigo ouvidor da Comarca de Rio das Mortes e rico proprietário de terras, que exaltou a igualdade humana e proclamou que os filhos do Brasil eram iguais aos filhos da Europa, e que o ouro de Minas Gerais era a causa da grandeza e da força dos impérios europeus.

Vila Rica era o centro de tudo. Ali se encontravam os chefes intelectuais; ali se faziam planos, se escrevia a futura Constituição e se planejava a organização da nova República. Em 1788, a Conjuração já se ramificava por toda a Capitania. No distrito diamantino, o padre José da Silva Rolim reunia material e homens para o levante, enquanto, nas freqüentes viagens de serviço ao Rio de Janeiro, Tiradentes aliciava colaboradores e recursos para a luta da independência. Aguardava-se a ocasião para o levante; um pretexto que despertasse o interesse dos ignorantes, comodistas e interesseiros. Ou seja, aqueles que só se movem e só aderem a idéias se puderem tirar algum proveito pessoal.
Nesse meio tempo, o cel. Joaquim Silvério dos Reis, percebendo que, sendo devedor da Fazenda Real, continuaria a dever aos cofres públicos, independentemente das mudanças políticas que pudessem acontecer, tratou de denunciar os planos dos inconfidentes. Quando o vice-rei tomou conhecimento da conspiração, o Visconde de Barbacena teve que começar a agir contra os mesmos.

O governador da Capitania, Visconde de Barbacena, conviveu, por algum tempo, com os principais conspiradores, ao que parece envolvido com o movimento. Quando, possivelmente, percebeu a gravidade da situação, tratou de se afastar. Diante do quadro que se configurou, o visconde encarregou os conspiradores Basílio de Brito Malheiro e Inácio Pamplona de vigiarem os conjurados.
Tiradentes foi preso no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1789, e, durante os interrogatórios, até o último momento, revelou grande energia moral, sustentando sua tese diante dos juízes e negando a participação de seus amigos, a fim de livrá-los do castigo. Enforcado em 21 de abril de 1792, teve o corpo esquartejado e exposto em diversos pontos da estrada de Minas. Sua cabeça foi fincada num poste alto da praça de Vila Rica, onde recebeu os insultos dos oradores escalados pelo Visconde de Barbacena. Os demais conjurados foram degredados para a África, sendo o poeta Cláudio Manoel da Costa assassinado na prisão e tendo sua casa e seus bens saqueados.
Na base da Serra do Itacolomi, desafiando o tempo, ainda se vê a Chácara de Cruzeiro, onde se reuniam, nos últimos dias da conjuração, os inconfidentes. Ali, prepararam os planos de ação e escolheram a bandeira que seria de fundo branco, tendo um triângulo vermelho e a legenda “Libertas Quae Sera Tamen” – Liberdade Ainda que Tardia.
A Inconfidência foi o primeiro movimento a proporcionar objetivamente o rompimento do pacto colonial, a tentar criar uma nação independente. Por isso, é no Museu da Inconfidência, uma das referências da cidade de Ouro Preto, que repousam os restos mortais dos conjurados. Desde o governo de Juscelino Kubitschek, o 21 de abril é comemorado festivamente em Ouro Preto, com a entrega da maior comenda de Minas Gerias, a Medalha da Inconfidência. Devem-se, no entanto, essas iniciativas a Augusto de Lima Júnior e ao seu livro Pequena História da Inconfidência Mineira, que teve sua primeira edição feita pela Imprensa Oficial e foi escrito a pedido de JK. Depois vieram outras edições, a cargo da grande editora mineira Itatiaia, dos irmãos Vivaldi, Edson e Pedro Paulo Moreira. Lima Júnior ainda conseguiu o decreto de Getúlio Vargas, que fez de Ouro Preto Monumento Nacional; com o Presidente Castelo Branco, em 1965, obteve a designação de Tiradentes como “Patrono Cívico na Nação Brasileira”. E, no Governo José Sarney, foi a vez de outro mineiro ilustre, José Aparecido de Oliveira, então ministro da Cultura, obter da UNESCO a elevação de Ouro Preto à condição de Patrimônio Cultural da Humanidade. Apesar de tal responsabilidade, a cidade vem se desfigurando pelo despreparo de seus administradores, populistas e demagogos. O ideal seria tornar o Centro Histórico, o chamado Primeiro Distrito, um município sob proteção federal.