Mineiros na República
 

O sonho dos inconfidentes não foi apagado pelo tempo, reside até hoje no inconsciente do mineiro, que continua a lutar pelos ideais de liberdade e igualdade entre os homens, de forma simples e austera. Assim se fez a política dos homens de Minas, atualizando-se nos conceitos modernos de desenvolvimento, se modificando e refazendo práticas sempre que necessário, pois o mineiro é inteligente, não recorre ao radicalismo que aniquila forças. Sabe reconhecer os momentos e as circunstâncias, sabe diferenciar e entende que a arte política precisa ser dinâmica para permanecer firme em sua inspiração.

Minas teve participação ativa em todos os grandes acontecimentos políticos da República. Na década de 30, o Estado foi decisivo para a vitória da revolução que modernizou o país com Vargas no poder. Em 1955, com a posse do mineiro JK, foi dada a arrancada para o desenvolvimento e a mudança da capital para Brasília. Quando os militares fizeram a revolução em 1964, foi o governador mineiro Magalhães Pinto quem assinou o manifesto que anunciou o movimento, apoiado por amplos setores da sociedade brasileira, como se verifica na leitura dos jornais da época. Para ilustrar a presença e a participação dos mineiros em 64, publico, em anexo, os manifestos de Magalhães Pinto, do general Olímpio Mourão Filho, mineiro de Diamantina, que deflagrou o movimento, e dois editoriais do jornal Estado de Minas, o mais importante do Estado.
Em 1985, quando o Brasil encerrava o ciclo militar, Minas também desempenhou importante papel no processo de redemocratização. Tancredo Neves, ex-governador do Estado, foi eleito, pelo Colégio Eleitoral, Presidente da República. Mas morreu antes de assumir o posto, em 21 de abril.
Mais tarde, em meio a grave crise política em função do impedimento do presidente Fernando Collor, o primeiro eleito diretamente desde 60, num clima de revolta nacional pelos escândalos e casos de corrupção, coube a outro mineiro, o vice-presidente Itamar Franco, assumir o governo, com a missão de pacificar o país, restabelecer a autoridade com austeridade, implantar a estabilidade econômica, dominando a inflação que tinha meio século de crescente aumento. Nomeou José Aparecido de Oliveira embaixador do Brasil em Portugal e, juntos, lançaram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), semente do fortalecimento de nossa cultura e nossa língua.
Um fato curioso: todos os presidentes da República mineiros foram antes governadores do Estado. A única exceção fica por conta de Itamar Franco, que, antes de ser presidente, foi candidato derrotado, em 1986. Elegeu-se apenas em 1998, depois de deixar o posto de chefe de Estado.
Outra curiosidade é que Minas deu os três vice-presidentes civis do período militar, como José Maria Alkmim, de Castelo; Pedro Aleixo, de Costa e Silva e Aureliano Chaves, de João Batista Figueiredo. E o primeiro vice eleito diretamente, em 89, com Itamar Franco.

Os Governantes Mineiros
Antônio Olinto dos Santos Pires —
O primeiro governador nomeado de Minas Gerais nasceu na cidade do Serro, em 15 de dezembro de 1860, e morreu em Belo Horizonte, em 25 de fevereiro de 1925. Formou-se engenheiro pela Escola de Minas de Ouro Preto – onde também foi professor de matemática, agrimensura e topografia. Deixou o cargo no dia 24 de novembro de 1889. Eleito e reeleito deputado federal. Renunciou em meio à segunda legislatura para assumir o Ministério da Indústria no Governo Prudente de Moraes. Quando o presidente se afastou em novembro de 1896, Antônio Olinto também saiu do governo. Seu prenome passou a ser adotado por inúmeras famílias mineiras, sendo o mais conhecido o do romancista e crítico literário Antônio Olinto, membro da Academia Brasileira de Letras, nascido no Piau, então distrito de Ubá.
José Cesário de Faria Alvim — Nasceu no Arraial de Pinheiro, em 7 de junho de 1839, e morreu em Belo Horizonte, em 4 de dezembro de 1903. Governou Minas de 1889 a 1890, e o Rio de Janeiro, de 1885 a 1887. Era senador por Minas quando recebeu a incumbência de governar o Estado, voltou ao posto entre 18 de julho de 1891 e 16 de junho de 1892. Seu último cargo público foi como prefeito do Distrito Federal, no governo de Campos Sales. A família parte, então, para o Rio, ligando-se pelo casamento à família Melo Franco – o que veio a se denominar “Tradicional Família Mineira”. Seu neto, Virgílio Alvim de Melo Franco, foi dos mais importantes e influentes políticos mineiros entre os anos 30 e 50, marcando época no Rio de Janeiro, onde atuava e desenvolvia atividades empresariais. Nesta virada de século, sua bisneta Adriana era embaixatriz do Brasil no Chile.
Augusto de Lima — Nasceu em 5 de abril de 1859, em Congonhas de Sabará, hoje Nova Lima, e morreu, em 22 de abril de 1934, no Rio de Janeiro. Jornalista, músico, compositor e escritor, dirigiu por muitos anos o Arquivo Público Mineiro, foi membro da Academia Brasileira de Letras e lecionou na Faculdade de Direito em Belo Horizonte. Elegeu-se e reelegeu-se deputado federal entre 1910 e 1934. Foi juiz de direito em Ouro Preto e Leopoldina, no início da carreira. É nome de município no norte de Minas. Sua reconversão ao catolicismo foi registrada em depoimento lavrado em cartório, republicado pela Revista Brasileira da ABL, em 1999. O filho José Augusto, seu biógrafo, foi jornalista no Rio; Lima Júnior, historiador; Renato, pintor; Letícia, pianista; e Maria Rita, cultora dos feitos da família, foi o ponto aglutinador dos filhos, netos e bisnetos no Rio, como em Belo Horizonte. Augusto de Lima marcou presença como governador, que foi aos trinta e dois anos de idade, ao propor e fazer aprovar a mudança da capital de Ouro Preto para a localidade denominada Curral Del Rei, que veio a ser a capital Belo Horizonte, cujo primeiro nome foi Cidade de Minas. Como parlamentar atuante e respeitado, foi autor do primeiro Código Florestal do Brasil e atuou muito na questão do Contestado, litígio envolvendo Minas e Espírito Santo em relação a fronteiras entre os dois estados. Participou da Revolução de 30. Getulio Vargas registrou em seu Diário o pesar quando de sua morte, em meio aos trabalhos da Constituinte, em 34.
Eduardo Gama Cerqueira — Nasceu em 15 de dezembro de 1840, em São João del-Rei, e morreu no Rio de Janeiro, em 11 de novembro de 1907. Militante republicano, elegeu-se senador estadual logo após a Proclamação. Quando Cesário Alvim renunciou ao governo, coube a Gama Cerqueira assumir o cargo até a posse de Afonso Pena.
Bias Fortes (pai) — Foi deputado estadual, chegando a ocupar a presidência da Assembléia, preocupado sempre com as questões financeiras do governo e a moralidade administrativa. Renunciou, declarando-se republicano. De 1890 a 1891, exerceu o Governo Provisório de Minas Gerais por indicação do presidente Deodoro da Fonseca. Foi eleito senador constituinte, e de novo renunciou, em 1894, quando se tornou o segundo governador eleito de Minas, com mandato até 1898. Transferiu a capital de Ouro Preto para Belo Horizonte e foi autor do anteprojeto para a primeira Constituição de Minas Gerais. Em 1906, foi convidado para candidatar-se à Presidência da República, mas preferiu apoiar Afonso Pena. Ao fim do governo, voltou ao senado para o qual foi seguidamente reeleito até a sua morte. Teve um filho governador, em 1955, e um neto – Biasinho deputado federal e secretário de Estado por diversas vezes.
Afonso Pena — Formou-se em direito aos 23 anos (1870) pela Faculdade de Direito de São Paulo. Exerceu sua profissão até ser eleito deputado provincial pelo Partido Liberal, em 1874. Quatro anos depois, iniciou seu mandato como deputado, sendo eleito sucessivamente até 1889. Ainda, durante esse período, foi ministro do Império, da Guerra (1882), Agricultura (1883) e Justiça (1885). Em 1890, elegeu-se deputado constituinte e, em 1892, foi eleito presidente do Estado de Minas Gerais. Participou da República sem nunca perder seus sentimentos de simpatia à monarquia e a profunda admiração por D. Pedro II. Entre os anos de 1895 e 1898, Afonso Pena ocupou a presidência do Banco da República (Banco do Brasil). No ano de 1899, foi eleito senador federal. Foi companheiro de chapa de Rodrigues Alves, para o período de 1902 a 1906. Foi escolhido candidato da política do café-com-leite à Presidência da República, para o período de 1906 a 1910. Eleito presidente, Afonso Pena manteve o Barão do Rio Branco e o marechal Hermes da Fonseca nos Ministérios das Relações Exteriores e do Exército. Montou o restante de seu ministério com políticos jovens, o que lhe valeu o apelido de “Jardim de Infância”. Economicamente, Afonso Pena efetivou as medidas do Convênio de Taubaté, protegendo o café das oscilações de mercado ao criar a Comissão do Café do Estado de São Paulo. Durante o seu governo, também foi realizada a ligação telegráfica entre o Rio de Janeiro e a Amazônia. Em 1909, morreu sem completar o mandato, sendo sucedido pelo vice-presidente Nilo Peçanha. O filho, Afonso Pena Júnior, talvez tenha tido até uma carreira mais brilhante, não chegando, entretanto, ao governo estadual, nem à Presidência da República. Mas foi membro da Academia Brasileira de Letras, da Mineira, deputado estadual e federal, advogado de sucesso, muito influente junto ao presidente Arthur Bernardes, desde quando esse governava Minas. Foi dos mais íntimos amigos de Rui Barbosa.
Francisco Sales — Em 1902, assumiu o governo de Minas, onde montou um secretariado de jovens. Quando deixou o governo de Minas, seu nome constava na lista dos possíveis escolhidos pelo Partido Republicano para ocupar a Presidência da República entre 1906 e 1910. Foi eleito senador e, no Governo Hermes da Fonseca, foi ministro da Fazenda. A demissão do Ministério da Fazenda custou a Francisco Sales a perda do controle político em Minas. Reelegeu-se senador e permaneceu no cargo até 1923. Quando morreu, aos 69 anos, não tinha mais mandato nem militância política. Era empresário e agricultor. Foi ainda prefeito de Belo Horizonte.
Delfim Moreira — Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, foi eleito deputado estadual e federal e ocupou a Secretaria do Interior do Estado de Minas Gerais. Candidato à vice-presidência na chapa de Rodrigues Alves, Delfim assumiu a presidência no lugar desse, logo no início do mandato. Entretanto, atingido por uma arteriosclerose, o novo presidente tomou atitudes desconcertantes durante o período em que esteve no poder. Após a morte do presidente eleito Rodrigues Alves, foram realizadas novas eleições, como determinava a Constituição de 1891, sendo substituído por Epitácio Pessoa. Seu filho, Delfim Moreira Júnior, foi constituinte em 1934.
João Pinheiro — Nasceu em 16 de dezembro de 1860, no Serro, e morreu em 25 de outubro em 1908, em Belo Horizonte, no Palácio da Liberdade. Foi um entusiasta da agricultura. Acreditava que a grande chance do Brasil estava na modernização da produção agrícola, o que significava abrir o país para as descobertas e as evoluções do setor praticadas pelo resto do mundo. Aos 46 anos, quando assumiu o governo, João Pinheiro, abolicionista e administrador dinâmico, redefiniu o perfil sócio-econômico de Minas Gerais. Dentre as muitas de suas inovações, está a do governo itinerante, que consistia no seu deslocamento para diferentes pontos do Estado, a fim de aprimorar os conhecimentos de todo o território mineiro. A política de incentivo fiscal, para atrair investidores, foi outra novidade que seria, mais tarde, copiada por futuros governantes de Minas, inclusive seu filho. João Pinheiro veio a falecer aos 48 anos, faltando dois anos para terminar o mandato de governador. Seu filho Israel também foi governador e os netos Israel Filho e Raul Bernardo Nélson de Sena, deputados. Outro neto, João Pinheiro Neto, foi ministro do Trabalho e seu bisneto, André Lara Resende, presidente do BNDES.
Bueno Brandão — Foi juiz em Ouro Fino, onde também desempenhou funções de delegado de polícia; vereador; e agente executivo, função equivalente à de prefeito no Império. Em 1893, foi eleito deputado estadual e permaneceu na Assembléia até 1897, quando se elegeu para o Senado Federal. Ocupou ainda o cargo de vice-presidente do Brasil e, com a morte de João Pinheiro, assumiu o governo de Minas até que se procedesse à eleição do substituto, Wenceslau Brás, que veio a ser Presidente da República. Virou nome de município, desmembrado de Ouro Fino. Seu filho, Júlio, foi constituinte em 1934.
Wenceslau Brás — Formou-se, em 1890, na Faculdade de Direito de São Paulo, junto com o primo Delfim Moreira, que também seria Presidente da República com a impossibilidade de Rodrigues Alves assumir o cargo. Retornou a Minas Gerais, mais precisamente para a cidade de Monte Santo, onde começou a exercer sua profissão. Lá, também, entrou na política, tornando-se vereador e, posteriormente, presidindo a Câmara Municipal. Em 1892, Wenceslau Brás é eleito deputado estadual e casa-se com a filha do chefe político da cidade de Itajubá. Entre 1898 e 1902, ocupou a Secretaria do Interior e Justiça, quando Francisco Silviano de Almeida Brandão era governador de Minas. Tornou-se deputado federal entre 1902 e 1906; foi reeleito, mas abriu mão do mandato para assumir, em 1909, a presidência do Estado de Minas Gerais. Permaneceu no cargo até 1910, quando seu nome foi indicado para compor, como vice, a chapa do marechal Hermes da Fonseca (1910-1914). Na eleição seguinte (1914), seu nome foi apresentado à Presidência, nos moldes da política do café-com-leite, o que contrariou o desejo do poderoso senador e caudilho gaúcho Pinheiro Machado. No Governo Wenceslau Brás (1914-1918), deu-se fim ao movimento do Contestado através da intervenção do exército, com uma força de 6 mil homens comandados pelo general Fernando Setembrino de Carvalho. Lá, usou-se, pela primeira vez no Brasil, a aviação para fins militares. O movimento só viria a terminar em 1916, com 20 mil mortos em cinco anos de luta, resolvendo-se, assim, a questão dos limites entre o Paraná e Santa Catarina. Destaca-se a atuação de Nilo Peçanha à frente do Ministério do Interior, que, em 26 de outubro de 1917, rompeu relações com os impérios da Alemanha e Austro-Húngaro, declarando-lhes guerra devido ao afundamento de navios brasileiros. O Brasil cooperou nos esforços de guerra dos Aliados com o fornecimento de produtos, ajuda no patrulhamento do Atlântico Sul e com o envio de uma missão médica à Europa. Findo o mandato, o nono Presidente da República voltou para Itajubá, onde nasceu, em 1868, a fim de dirigir sua empresa e lá morrer em 16 de maio de 1966. Era tido como um homem de temperamento conciliador. Sua preocupação no começo do mandato foi de não articular qualquer vínculo com o Partido Republicano Conservador (PRC), de Pinheiro Machado. A morte desse último, em 8 de setembro de 1915, representa a decadência do PRC e a reconciliação nacional que propunha Wenceslau Brás. Seu filho, José Brás, foi deputado federal. Apesar da idade, apoiou o movimento de 64.
Raul Soares — Em 1910, Soares assumia o controle da política da região de Ubá e Visconde do Rio Branco, em Minas Gerais. Foi vereador, presidente da Câmara e prefeito do Rio Branco, antes de se eleger deputado estadual para a legislatura 1911-1914. No Governo Delfim Moreira, exerceu o cargo de secretário da Agricultura. Por ser considerado um homem severo e enérgico, o presidente Epitácio Pessoa o nomeou, mesmo sendo civil, para o Ministério da Marinha. Em 1922, Raul Soares, um dos responsáveis pela eleição de Arthur Bernardes para a Presidência da República, e em parceria com este, assumia o governo de Minas. Soares morre em 4 de agosto de 1923.
Olegário Maciel — Engenheiro e fazendeiro, Maciel, como candidato de conciliação, se elegeu governador em 1930. Foi pioneiro no fabrico de álcool de mandioca, meio século antes do Pró Álcool. Constituiu um grande nome no Estado. Seu sobrinho, Adélio, veio a se eleger deputado.
Fernando Melo Viana — Nascido em 15 de março de 1878, Melo Viana era conhecido como Piaba. Rico comerciante atacadista e benemérito de Sabará, Piaba ocupou importantes cargos públicos, tendo sido presidente do Estado de Minas Gerais, promotor de justiça de Mar de Espanha, deputado nomeado em 1905 e juiz de direito das cidades do Serro, Santa Luzia do Carangola e Uberaba. Em 1928, foi nomeado advogado-geral do Estado e tornou-se secretário do Interior, no governo de Raul Soares. Com a morte do governador, em 1924, Melo Viana assume, por indicação do Congresso, como seu sucessor. Em pouco tempo de governo, contribuiu muito para o desenvolvimento de Minas Gerais: cuidou do transporte, criou várias rodovias e prolongamentos de ferrovias; inaugurou o Conservatório Mineiro de Música e o Instituto São Rafael, para educação de cegos; promoveu a federalização da UFMG. Em Sabará, construiu a principal via de acesso à cidade, o prédio do Fórum, a Ponte Grande e contribuiu para o desenvolvimento da cidade e da Siderúrgica Belgo-Mineira. Faleceu, no Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1954, como senador.

Antônio Carlos — Filho de Carlos Ribeiro de Andrada, descendente do Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva. A mãe era Adelaide Feliciano, bisneta do inconfidente José Aires Gomes e irmã do ministro e senador José Rodrigues Lima Duarte. Antônio Carlos casou com Julieta Guimarães, filha do Barão de Rio Preto e bisneta do Marquês de Olinda. O mais aristocrático dos governadores mineiros foi prefeito de Belo Horizonte e assumiu o governo de Minas em 7 de setembro de 1926, sendo o grande articulador da Revolução de 30. Exerceu por duas décadas mandatos de deputado federal e foi o autor da lei que instituiu o voto secreto. Aos 67 anos, Antônio Carlos deixou a vida política e, aos 75, faleceu. Seu genro, Lair Tostes, de família com tradição na política, foi constituinte em 46. O pai desse, João Resende Tostes, co-sogro, portanto, de Antônio Carlos, foi deputado constituinte em 1934. Mas é preciso dizer também que os Andradas, desde o Império, participam do Parlamento brasileiro. Na segunda metade do Século XX, com José Bonifácio, que foi presidente da Câmara, líder da UDN e dos governos militares, e depois seu filho, Bonifácio Andrada, continuador, que, após mandatos na Assembléia e a passagem pela Secretaria do Interior e Justiça, subiu ao plano federal. Deixou um filho, Bonifácio José, na Assembléia estadual. Andradinha, como é mais conhecido o parlamentar, foi candidato a vice-Presidente da República, em 1989, como companheiro de chapa de Paulo Maluf. Outros Andradas, na recente virada do milênio, exerceram mandatos na Câmara Federal, estadual e municipal.
Quando Francisco Campos, secretário de Estado no Governo Antônio Carlos, fez a grande e modelar reforma do ensino em Minas, foi enviado à Europa o professor Alberto Álvares para contratar mestres. Nesta missão é que trouxe de Genebra a figura singular de Helena Antipoff e da escultora belga Jeanne Milde, que veio instalar o ensino da arte entre nós, conforme lembra o diretor do Museu Mineiro, Luís Augusto de Lima, a quem devemos o trabalho de resgate da memória e da cultura mineira no Século XX que tão bem conhece.
Gustavo Capanema — Formado em direito em Belo Horizonte, obteve seu primeiro mandato político como vereador em sua cidade natal, Pitangui (MG), em 1927. Foi governador de 5 de setembro a 15 de dezembro de 1933. Nomeado secretário do Interior do governador de Minas (1930), tornou-se interventor no Estado (1933) e ministro da Educação e Saúde Pública do Governo de Getúlio Vargas (1934-1945). Assessorado por seu chefe de gabinete, o poeta Carlos Drummond de Andrade, Capanema formou uma equipe integrada por nomes como Mário de Andrade, Cândido Portinari, Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Lúcio Costa, Cecília Meireles e Afonso Arinos de Melo Franco. Sua gestão foi marcada pela retomada das campanhas sanitárias, pela reforma do ensino e pela criação da Universidade do Brasil, do Instituto Nacional do Livro e do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Também construiu a sede do Ministério no Rio de Janeiro, um marco na abertura em relação à arquitetura moderna no Brasil. Ainda foi deputado federal (1946-1959 e 1961-1970), ministro do Tribunal de Contas (1959-1961) e um dos fundadores da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido pelo qual elegeu-se senador (1970). Foi um dos grandes expoentes do PSD mineiro. Apesar de ter tido toda uma carreira no centro democrático, foi respeitado pelas esquerdas mesmo depois de morto. Em seu centenário, exaltado oficialmente com muita justiça, pouco se falou que os serviços prestados se deram em dois períodos autoritários que combateram as esquerdas – o Estado Novo e a Revolução de 64. Por isso é que pode ser lembrado como um típico pessedista mineiro, pela habilidade em conviver e cativar os contrários.

Flagrante da assinatura do Decreto de Getúlio Vargas referente à História de Minas, na propriedade de João Tostes. Presentes o ministro Gustavo Capanema, governador Benedito Valadares, D. Vivi Tostes, Ilka Andrada Tostes, Lahyr Tostes, João Tostes e Augusto de Lima Júnior.


Benedito Valadares — Getúlio Vargas o nomeou interventor em Minas Gerais. Era o menos conhecido da bancada federal, mas teve a mais surpreendente ascensão ao governo mineiro. É que não interessava a Getúlio Vargas ter em Minas um governo que representasse muita força; bastava ser fiel e pouco ambicioso. E, durante os 12 anos em que esteve no governo de Minas, Benedito Valadares deu o seu apoio a Getúlio. Em contrapartida, recebeu tudo para dedicar a Minas um governo prestigiado. Deputado federal pelo PSD, em 1946, permaneceu na Câmara até 1955, quando se elegeu senador, e assim ficou até 1971. Dois anos depois, faleceu. Suas filhas Helena e Lúcia casaram-se, respectivamente, com o escritor Fernando Sabino e João Lima Pádua, o mineiro que ocupou vários cargos na administração do Rio de Janeiro, como diretor do Teatro Municipal e chefe da Casa Civil, quando seu tio Francisco Negrão de Lima foi prefeito do Distrito Federal e governador da Guanabara. Getúlio, para manifestar apreço pelos mineiros, permitiu que Valadares usasse o título de governador e não de interventor. A propósito, foi com Benedito que Belo Horizonte teve alguns de seus melhores prefeitos; entre eles, JK e Otacílio Negrão de Lima.
Fernando Sabino ao se casar ganhou do então presidente JK um dos melhores cartórios do Rio. Poucos anos depois, com o fim do casamento, procurou o Presidente para pedir que nomeasse sua mulher Helena, de vez que iria renunciar ao cartório, que supunha haver recebido em função do casamento. JK atendeu. Um raro exemplo de dignidade.
Batista de Oliveira — Nasceu em Juiz de Fora, em 1889, e morreu em Belo Horizonte, em 1969. Foi delegado de polícia em Formiga; promotor de justiça em Juiz de Fora; procurador-geral do Estado, no Governo Antônio Carlos; desembargador a partir de 1930; e presidente do Tribunal de Justiça entre 1939 e 1958. Foi ainda denominado o primeiro interventor da redemocratização, em 29 de outubro de 1945. Sua família manteve presença na política e ligou-se, pelo casamento, a outras de igual importância.
João Tavares Correia Beraldo — Nasceu no distrito de Santana do Sapucaí de Pouso Alegre, hoje Silvianópolis, e morreu em Juiz de Fora, em 1960. Foi deputado estadual (1918-1930), deputado federal (1934-1937) e secretário do Interior, de agosto de 1940 a maio de 1941. Nomeado em seguida para a diretoria do Banco de Crédito Real, licenciou-se em fevereiro de 1946 para substituir Nísio Batista de Oliveira como interventor em Minas Gerais, nomeado pelo presidente Dutra. Teve parentes na política, como o ex-diretor da Cemig Coriolano Beraldo, escritor e jurista, casado com Beatriz, filha de Bilac Pinto, um político que marcou sua passagem na Câmara dos Deputados, foi ministro do Supremo e embaixador na França.
Júlio Ferreira de Carvalho — Nasceu em 1894 e morreu, em 1962, na cidade de Belo Horizonte. Foi nomeado interventor em Minas pelo presidente Dutra, em agosto de 1946, mas deixou a função em novembro para se candidatar a deputado estadual.
Noraldino Lima — Nasceu em São Sebastião do Paraíso, em 1885, e morreu no Rio de Janeiro, em 1951. Foi deputado federal, de 1935 a 1937, e interventor em Minas por um mês, de 14 de novembro a 18 de dezembro de 1946. Noraldino atuou também como jornalista.
Alcides Lins — Nasceu em Ouro Preto, em 1891, e morreu no Rio de Janeiro, em 1969. O presidente Dutra o nomeou, em 1946, interventor em Minas, onde ficou até 19 de março de 1947, quando passou o cargo para o governador eleito Mílton Campos. Era filho do ministro do Supremo Tribunal Federal Edmundo Lins e irmão do famoso advogado no Rio de Janeiro (anos 60 e 70) Miguel Lins, do embaixador David Lins e do escritor e membro da ABL, Ivan Lins. Alcides também era tio de José Luiz de Magalhães Lins, banqueiro que modernizou o setor bancário privado no Brasil na década de 60, como principal executivo do Banco Nacional de Minas Gerais, propriedade de seu tio materno Magalhães Pinto, que também governou Minas. José Luiz foi o primeiro banqueiro a promover o cinema nacional e a prestigiar o esporte e as artes, além de dar ênfase à carteira de empréstimo pessoal. Ligou-se à família Melo Franco, casando-se com Nininha, filha de Maria do Carmo Melo Franco Nabuco (nora de Joaquim Nabuco), que, a pedido de Israel Pinheiro, promoveu a redescoberta da cultura e do turismo de Tiradentes. E como tudo em Minas se liga por meio das suas mais antigas famílias, a Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade, em Tiradentes, teve sua direção confiada por D. Maria do Carmo ao advogado Breno Belo Neves, sobrinho de Tancredo Neves.
Mílton Campos — Assumiu o governo dando ênfase a uma política capaz de alicerçar e promover o desenvolvimento de Minas Gerais. E nesse sentido foi pioneiro no que se refere às políticas de energia e transporte. Para reestruturar o governo de Minas, Campos tomou medidas duras que prejudicaram a campanha do candidato udenista Gabriel Passos, facilitando a eleição de Juscelino Kubitschek – embora fosse um liberal udenista. Aliás, foi duas vezes derrotado em eleições como candidato a vice-Presidente da República, pela UDN. A primeira como companheiro do marechal Juarez Távora (1955) e a segunda, de Jânio Quadros (60). Mílton Campos foi ministro da Justiça do presidente Castelo Branco e, em 1970, foi eleito senador, pela Arena. Seu centenário foi amplamente comemorado, tendo o político e historiador Murilo Badaró publicado sua biografia sob o título de Mílton Campos, o Pensador Liberal. Seu neto, o advogado Luiz Antônio, chegou a diretor da Comissão de Valores Mobiliários antes dos 40 anos. O genro, Raul Machado Horta, tornou-se uma sumidade do mundo jurídico brasileiro.
Juscelino Kubitschek — Como prefeito nomeado, por Benedito Valadares, de Belo Horizonte, Juscelino levou os traços do genial Oscar Niemeyer, através do Projeto Pampulha, para a capital mineira. Logo depois, JK foi eleito deputado constituinte e sucessor de Mílton Campos, derrotando seu cunhado Gabriel Passos, um udenista nacionalista histórico. Obteve, então, o apoio federal para a construção de uma siderurgia moderna no Estado, a alemã Mannesmann, inaugurada por Vargas poucos dias antes de sua morte. JK deixou o governo com seu vice-governador, Clóvis Salgado, e elegeu-se Presidente da República em 1955. Seu mandato foi marcado pela construção da nova capital do Brasil, Brasília, fruto de sua visão de estadista, e um programa de metas grandioso foi concebido por Lucas Lopes, também mineiro, e por Roberto Campos, mato-grossense, que viveu em Minas, onde estudou no Seminário de Belo Horizonte. Sua filha, Márcia, chegou a ser deputada federal por Brasília e vice-governadora, perdendo uma disputa pelo Senado em 1998. No ano do centenário, entre os grandes livros está a biografia escrita por Cláudio Bojunga. Maristela, sua outra filha, casou-se com Rodrigo, filho de Lucas Lopes e de Ester Negrão de Lima. Rodrigo exerceu diversas funções públicas de relevo no Rio de Janeiro.
Clóvis Salgado — Político do Partido Republicano, que em Minas reunia os seguidores do ex-presidente Arthur Bernardes, assumiu o governo por nove meses, com a desincompatibilização de JK. Também ocupou o cargo de ministro da Educação e Cultura. Passou o governo para Bias Fortes, do PSD, que havia sido derrotado anteriormente por Mílton Campos. Como já referido, levou os restos mortais de Marília de Dirceu para o panteon dos Inconfidentes, por sugestão de Augusto de Lima Júnior.
Bias Fortes — Ficou na prefeitura de Barbacena até o fim do Estado Novo, em 1945. Aliado de Benedito Valadares, tornou-se membro da Comissão Executiva do Partido Social Democrático, PSD, pelo qual saiu candidato a governador em janeiro de 1947, perdendo para Mílton Campos. Nos meses finais do Governo Dutra, em 1950, foi ministro da Justiça. Em 1955, retornou a Minas para vencer as eleições ao governo estadual, junto com JK para presidente. Seu filho, Bias Fortes Filho, conhecido como Biasinho, foi deputado federal, vice-governador e secretário de Estado diversas vezes.

Magalhães Pinto

Magalhães Pinto — Nasceu em 1909, em Santo Antônio do Monte, e morreu no Rio, em 1995. De bancário a um dos maiores banqueiros do Brasil, foi, em 1943, signatário do Manifesto dos Mineiros, pedindo o fim do Estado Novo – o que lhe custou o emprego de diretor do Banco da Lavoura e o levou a fundar seu próprio banco, o Nacional de Minas Gerais. Entrou para a política partidária em 1945, como um dos fundadores da União Democrática Nacional, pela qual se elegeu deputado federal e se reelegeu seguidamente até 1958. Governou Minas entre 1961 a 1966. Além de ter feito um governo dinâmico e realizador, cunhou o slogan que ficou famoso: “Minas trabalha em silêncio”. Ajudou a projetar um grupo de então jovens que vieram, mais tarde, a se notabilizar na política nacional, como José Aparecido, Aureliano Chaves e Hélio Garcia, entre outros. Em 1964, assumiu a responsabilidade de ser líder civil da Revolução, com coragem e determinação (ver anexos). Foi ministro das Relações Exteriores do presidente Arthur da Costa e Silva e presidente do Senado. O mineiro Oscar Dias Correa, parlamentar, jurista, ministro do Supremo Tribunal Federal e membro da Academia Brasileira de Letras, aponta, em depoimento publicado pela Assembléia Legislativa de Minas (2000), Magalhães Pinto como o melhor governante que Minas Gerais já teve.
Israel Pinheiro — Nasceu em Caeté, em 1896, e morreu em Belo Horizonte, em 1973. Montou e presidiu a Cia. Vale do Rio Doce; foi prefeito e construtor de Brasília; governador de Minas, eleito pelo PSD, em 1965; e deputado federal, por várias legislaturas. Com o fim dos partidos políticos, Israel fundou a Arena em Minas. É considerado um dos mais importantes estadistas de seu tempo, pela visão macroeconômica e tino de administrador. Muito íntegro, fazia restrições aos políticos que misturam interesses públicos e privados, como aborda muito bem Murilo Badaró em determinada passagem da biografia de José Maria Alkmim. Filho de governador, Israel é membro de uma ilustre família. Israel Pinheiro Filho, ou Israelzinho, foi deputado por vários mandatos; seu sobrinho, Raul Bernardo Nélson de Sena, também foi deputado, presidente da Rede Ferroviária e secretário de Estado; e seu neto, o economista André Lara Resende, presidente do BNDES. E isso sem contar o seu genro, o grande jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira, Otto Lara Resende.
Rondon Pacheco — Vice-líder e líder da UDN. Assumiu o governo de 1971 até 1975. Sua administração coincidiu com o período conhecido como “o milagre brasileiro”, caracterizado por um desenvolvimento acelerado, apresentando uma das maiores taxas do mundo. Durante o seu governo, a FIAT se instalou em Minas. Elegeu-se ainda deputado federal mais de cinco vezes, retirando-se da política em 1987, e passando a viver entre o Rio de Janeiro e Uberlândia. Formou o grupo de notáveis mineiros da UDN, que deu ao Brasil figuras como Pedro Aleixo, Afonso Arinos, Elias Souza Carmo, Monteiro de Castro, Oscar Correa e Bilac Pinto. No Rio foi benemérito da Associação Comercial. Foi um forte fator no desenvolvimento de Uberlândia, sua terra natal.
Aureliano Chaves — Engenheiro e professor, ligado ao setor elétrico, Aureliano, ainda muito jovem, foi deputado estadual e secretário de Estado no governo de Magalhães Pinto. Político da UDN no sul de Minas, foi eleito deputado federal. Em 1978, foi escolhido pela Arena para o governo de Minas, onde contou com o apoio do presidente Ernesto Geisel. Foi indicado para compor a chapa do presidente João Figueiredo, tendo assumido diversas vezes a Presidência da República. No Governo José Sarney, foi ministro das Minas e Energia. Mesmo se afastando da vida político-partidária, continuou sendo ouvido e chamado de “reserva moral da Nação”. Seu filho, Antônio Aureliano, elegeu-se deputado federal.
Ozanan Coelho — Com a desincompatibilização de Aureliano Chaves, de quem era vice-governador, Ozanan assumiu a administração do Estado. Antes, porém, aos 21 anos, foi prefeito nomeado de Ubá. Seu pai, Levindo Coelho, era chefe político respeitado e, em 1946, foi senador por Minas. Nesse mesmo ano, Ozanan foi eleito constituinte estadual, depois deputado federal, sendo reconhecido como um dos políticos mais notáveis do PSD. Fez um governo excepcionalmente realizador pelo curto espaço de nove meses, ligando quase meia centena de cidades ao asfalto. Seu irmão, o médico Eduardo Levindo Coelho, foi dos mais respeitados homens públicos de Minas. Ozanan voltou à Câmara, depois de ser governador. Com sua morte, o lugar passou a ser ocupado por seu filho Saulo, eleito deputado federal mais de uma vez.
Francelino Pereira — Nasceu em 1921, no Piauí, e foi governador de Minas, entre 1978 e 1983. O período em que esteve no governo foi marcado pela crise do petróleo, que abalou toda a economia ocidental, e pelas enchentes no início de 1979. Mesmo assim, conseguiu realizações expressivas, e em clima de muita tranqüilidade. Foi eleito senador em 1994; deputado federal por várias legislaturas; vice-presidente do Banco do Brasil; e presidente da Arena. Soube formar uma equipe de técnicos jovens e competentes, como Paulo Haddad, que veio a ser ministro de Itamar, Afonso Celso de Sousa Carmo, advogado que chegou ao Tribunal Superior do Trabalho, filho do admirável Elias de Sousa Carmo. Começou na UDN.
Tancredo Neves — Representante da tradição moderadora da política mineira, Tancredo se caracterizou pela tendência à conciliação e à negociação, sem prejuízo da consistência de suas posições liberais. Nasceu em São João del-Rei, em 1910, e formou-se em Direito, em 1932. Advogado e promotor de justiça em sua cidade, iniciou a vida política como vereador e presidente da Câmara Municipal. Foi deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD), deputado federal em cinco legislaturas (1951-1955 e 1963-1978), secretário de Fazenda de Minas Gerais (1958-1960), primeiro-ministro no Governo João Goulart, senador (1979-1982), governador de Minas Gerais (1983-1984) e Presidente da República, eleito em 1985 pelo Colégio Eleitoral. Sua carreira política ganhou evidência a partir de 1953, quando o presidente Getúlio Vargas o fez ministro da Justiça (1953-1954). Pronunciou importante discurso à beira do túmulo de Vargas, em São Borja. Foi um dos articuladores da candidatura de Juscelino Kubitschek à presidência e seu influente conselheiro em assuntos políticos e econômicos. Em 1960, foi candidato derrotado ao governo de Minas. Após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, Tancredo encaminhou a solução que permitiu a João Goulart assumir a presidência da República, mediante a adoção do regime parlamentarista, sendo ele próprio o primeiro-ministro. Apesar de mais uma vez ter demonstrado moderação, não conseguiu impedir a queda de Goulart. Durante o regime militar, Tancredo Neves atuou no movimento pela redemocratização, integrando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), mas nunca esteve próximo dos mais radicais. Com a extinção do bipartidarismo, foi fundador, em 1979, do Partido Popular, mais tarde, em vista da proibição das coligações partidárias, absorvido pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do qual foi vice-presidente. Eleito, em 1982, governador de Minas Gerais, tornou-se nome de consenso das correntes de oposição ao regime para a eleição indireta. Derrotada, na Câmara dos Deputados, a emenda constitucional que determinava a realização de eleições diretas para a escolha do sucessor do presidente João Figueiredo, Tancredo Neves teve seu nome lançado para concorrer ao Colégio Eleitoral, onde, a 15 de janeiro de 1985, derrotou o candidato do Partido Democrático Social (PDS), Paulo Maluf. Em 14 de março de 1985, véspera de sua posse, foi submetido a uma cirurgia de urgência, em Brasília, para a retirada de um tumor no abdome, mas seu quadro clínico complicou-se com uma infecção hospitalar. Transferido para o Instituto do Coração, em São Paulo, sofreu sucessivas operações, numa longa agonia que emocionou o Brasil. Ali morreu, em 21 de abril de 1985. Seu neto, Aécio Neves Cunha, foi eleito, pela primeira vez, deputado federal, em 1986. Chegou à presidência da Câmara dos Deputados em 2001.
O neto de Tancredo, em 2002, foi candidato ao Governo de Minas apoiado por uma ampla coligação, que incluiu o governador Itamar Franco. Aécio correspondeu à responsabilidade de ser não apenas neto de Tancredo, mas filho do deputado por muitas legislaturas Aécio Cunha, e ser neto de Tristão da Cunha, deputado e político de muita influência e, portanto, bisneto de Simão da Cunha, um dos líderes republicanos em Minas. O curioso é que, durante o regime militar, Tancredo e o genro eram ambos deputados federais, sendo que Tancredo no MDB, de oposição, e Aécio na ARENA, governista. Aecinho, como ficou conhecido, nasceu cercado de ricas experiências na vida pública mineira e brasileira.
Hélio Garcia — Nascido em Santo Antônio do Amparo, sul de Minas, iniciou-se na política pela UDN, passou pela Arena e fundou o PP com Tancredo Neves e Magalhães Pinto. Em 1982, a chapa Tancredo Neves-Hélio Garcia, do PMDB, venceu as eleições para o governo estadual. Vice-governador, Hélio foi, em seguida, indicado para a prefeitura de Belo Horizonte. Assumiu o governo em agosto de 1984, quando Tancredo Neves renunciou para se candidatar a presidente. Iniciou, então, um período de intensas conversações com os militares e líderes partidários capazes de assegurar a eleição de Tancredo Neves. Em 1989, encontrava-se afastado da política e foi convidado por vários candidatos que o queriam como vice-presidente. Hélio permaneceu em sua fazenda. Em 1990, voltou a disputar as eleições para governador. Sem dispor de estrutura partidária, venceu baseado no seu prestígio pessoal. Sua segunda passagem pelo Palácio da Liberdade foi pautada pelo sucesso na política de finanças, na educação, na saúde, na agricultura e em grandes obras rodoviárias, numa fase de grande crescimento do Estado.
Newton Cardoso — Nasceu em 1944, na Bahia. Um fenômeno político e administrativo, uma vez que pouco comparecia ao Palácio para despachos. Estudou e fez política estudantil em Belo Horizonte. Filiou-se ao MDB, no final de 1965. Candidatou-se, sem êxito, a deputado em 1966. Doze anos depois, elegeu-se deputado federal, o mais votado do MDB. Em 1986, venceu o candidato do PL-PFL, então o senador Itamar Franco. Governou Contagem por duas vezes; voltou à Câmara muito votado.Como governador, fez uma excelente administração, o que lhe permitiu consolidar grande prestígio popular. Como todo realizador, enfrentou acusações de toda ordem. Em 1998, foi eleito vice-governador na chapa com Itamar Franco, mas quase no final do mandato se desentenderam. Disputou o governo mineiro sem o apoio do Governador, tendo como companheira de chapa a deputada Maria Elvira, uma campeã de votos que deixou muito boa imagem na Câmara dos Deputados.
Eduardo Azeredo — Filho do deputado federal Renato Azeredo, um dos mais estimados políticos mineiros de seu tempo e referência do PSD, Eduardo foi eleito vice-prefeito de Belo Horizonte, com Pimenta da Veiga. Com a desincompatibilização do titular, para disputar o governo do Estado, beneficiou-se da reforma tributária, fruto da Constituinte de 1988, e acabou credenciado para a sucessão estadual. Seu governo foi tímido, dominado pela família, não tendo logrado a reeleição, apesar do forte apoio federal. Em 2002 foi eleito com grande votação para o Senado.
Itamar Franco — Tornou-se o grande nome da política mineira depois do êxito de sua passagem pela Presidência da República. No plano federal, foi o responsável pela estabilização na economia com o Plano Real e pela escolha do nome e da eleição de seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso, que havia sido seu ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Íntegro e austero, Itamar aceitou as funções de embaixador do Brasil em Portugal e na O.E.A. Entre outros motivos, por precisar de emprego, pois, apesar de vir ocupando mandatos eletivos desde 1966 (senador por duas vezes, vice-presidente e Presidente da República), continuou sendo um homem de classe média. Chocado com a maneira com que se aprovou a reeleição do Presidente da República, Itamar afastou-se de Fernando Henrique e, em 98, foi eleito governador de Minas. Ao tomar posse, encontrou o Tesouro Estadual exaurido e o funcionalismo sem receber, revertendo esse quadro no prazo de um ano. Venceu a grave crise financeira e restabeleceu a auto-estima dos mineiros. Previu a crise energética que o país viveu em 2001 e autorizou a Cemig a iniciar muitos projetos. Como prefeito de Juiz de Fora, também teve a administração elogiada.
Aécio Neves Cunha — Foi eleito governador de Minas Gerais em 2002, em ampla união de forças politicas.