FORMAÇÃO RELIGIOSA
 

O ouro não atraiu somente aventureiros e comerciantes com o propósito de enriquecerem nas terras das Minas Gerais. A exploração do metal também trouxe portugueses – principalmente vindos do norte de Portugal – que chegavam a essas terras trazendo pequenas imagens dos santos de sua devoção e algumas peças de arte.
Populações, que formaram a base racial em Minas, na Bahia e em larga faixa de povoamento até Pernambuco, vieram dispostas a enfrentar os mais sérios perigos, doenças e mortes. Encaravam arriscada travessia marítima e varavam sertões sonhando com a riqueza. Valia tudo; matar ou morrer. No entanto, diante das imagens da Virgem Maria ou dos Santos Oragos da terra natal, entregavam-se completamente à contemplação.
Diante desses santos, os aventureiros pediam proteção celestial. Acreditavam que, caso seus objetivos não fossem parte dos desígnios divinos, ao menos lhes seria concedida a salvação eterna. O espírito místico, que acompanhava toda essa empreitada, era tão forte que, mal uma aldeia começava suas primeiras instalações, logo surgia uma capelinha de taipa, em cujo altar se firmava a estátua que reproduziria o padroeiro da vila. Enquanto não dispunham de igreja e de padres para celebrarem os cultos católicos, os fiéis se reuniam por conta própria para a oração, a ladainha e o ofício de Nossa Senhora, que eram rezados sob a direção de alguém que soubesse ler, o que não era comum.

Capela do Rosário - Ouro Preto (Publicado em "A Capitania das Minas Gerais").

O culto á Virgem Maria foi logo o mais difundido. Quando humildes pescadores, no Paraíba, retiraram do rio, com suas redes de pesca, a pequena efígie da Virgem Maria, o Brasil passou a ter N. Sra. Aparecida como protetora. Por todo o território das Minas Gerais ficaram as marcas do espírito cristão e católico. O mapa mineiro mostra a origem de quase todas as localidades nas capelas edificadas pela iniciativa e pelo trabalho dos caçadores do ouro, que se esmeravam em produzir, no padroeiro ou no desenho dos altares, as visões das localidades e suas procedências.
A rapidez com que se ergueram em todo o território das Minas tão numerosas igrejas resultava não só do fervor religioso, característico dos portugueses, como também da preocupação utilitária. Uma mistura de misticismo e materialismo dominava essas multidões.
A ignorância incutia em todos um falso conceito de divindade, muito próximo do paganismo, cujo costume encontramos em muitos pontos no Brasil, sendo interpretado, às vezes falsamente, como influências africanas. A concepção religiosa nem sempre correspondia à idéia moral. Todos os crimes se cometiam, todos os abusos eram tolerados, desde que as oferendas à igreja, aos santos e os donativos às irmandades aplacassem a cólera divina. Para todo e qualquer tipo de pecado havia meio de se conseguir o perdão. E sempre através de uma única penitência: os donativos. A relação das infrações às leis divinas e humanas e a maneira como estas eram coibidas estão no livro Penitológico Sacramental e Foral Espiritual, de frei Luís de São Francisco, que, desde 1691, foi o guia de padres missionários que andaram pelo Brasil.
Por essas razões, a construção de uma igreja era cada vez mais urgente – menos, talvez, pela fé do que pela necessidade de se criar possibilidades de perdão para as faltas freqüentes, sobretudo em matéria sexual e fiscal.
Instalada a paróquia, os vigários, por disposição canônica, eram obrigados a organizar a lista de seus jurisdicionados, que, na verdade, serviam não só para a vigilância do pastor como também para escolher os “homens bons”, abastados e de conduta regular. Ou seja, a sociedade civil se confundia com a religiosa, fazendo com que a vida em Minas fosse movimentada por casamentos, batizados, procissões e outros atos religiosos.
Em Vila Rica, governadores compareciam às igrejas para assistir algumas solenidades religiosas. A missa dos domingos era obrigatória, inclusive para os escravos. Quem não comparecia era obrigado a se justificar. Por isso, não é demais afirmar que o período de povoamento da região foi marcado pelo enriquecimento rápido e pelo fervor religioso.
As lendas demoníacas européias, inclusive babilônicas, assustavam os aventureiros que ainda se deparavam nas novas terras com os “sacis”, “mulas-sem-cabeças”, “curupiras” e muitas histórias e contos, cada um mais escabroso que o outro. Somente a igreja para lhes oferecer um recanto seguro onde sua mente pudesse encontrar um pouco da paz esquecida pela aventura ambiciosa. Por isso, era mais do que necessário estar em paz com Deus para que os seus planos de enriquecimento em terra nova fossem bem-sucedidos. E, para isso, não poupavam os investimentos nas igrejas.
Trinta anos após a descoberta e o povoamento, as igrejas matrizes das vilas e dos arraiais tinham seus maravilhosos altares de talha policromada ou dourada. A quantidade de prata em obras que constituem os acessórios e ornamentos sacros jamais poderá ser calculada com exatidão.
Mas toda essa riqueza e ostentação acabaram despertando a cobiça da população e criando, muitas vezes, situações constrangedoras. Em Sabará, por exemplo, um jovem padre muito esperto, bacharel de Coimbra, nomeado vigário da paróquia, obteve, do arcebispo D. Silvério, a permissão para vender alguma prata das igrejas para atender a reparos em algumas delas. Durante três anos, saíram de Sabará mais de 50 toneladas em objetos sacros. No final desse período, as missas estavam sendo celebradas em cálices de latão. E o jovem padre, que não consertou igreja alguma, voltou para Portugal, onde tirou a batina e se casou, como conta Augusto de Lima Júnior em um de seus livros.
A despeito de incidentes como o narrado acima, a vida no clero era respeitada e despertava forte interesse. Em 1759, Vila Rica contava com 80 padres e Sabará com 42 – muito mais do que hoje. Outras profissões foram exercidas quase exclusivamente por sacerdotes, que acumulavam as funções de pastor com as mais diversas atividades.
A divisão de Alçada nos casos cíveis, entre os foros Ordinário e Eclesiástico, ambos com grande movimento, facilitava o exercício da advocacia a inúmeros sacerdotes, doutores em cânones, que mantiveram bancas famosas nas sedes de comarca. Um deles, padre José Correia da Silva, advogado em Sabará, processado por crime de inconfidência, teve seus bens seqüestrados pelo desembargador João Caetano Soares Barreto, que presidiu a devassa.
Os padres também possuíam fazendas de gado, minerações próximas de Vila Rica, engenhos de açúcar, comércio de medicamentos, e foram ainda professores dos filhos das famílias ricas, que eram depois mandados para o Rio de Janeiro. Os pais se orgulhavam em trancar as filhas nos conventos, chegando a coagi-las a tomar o hábito religioso, e aos filhos a roupa de frade ou a batina de doutores em cânones. A expressão “padre mestre”, aplicável a todo sacerdote que não era vigário, documenta o quanto generalizado era o ofício de ensinar entre os padres. Foram eles também, juntamente com os frades capuchinhos italianos, os professores a ensinar música, que resultou na evolução da cantiga portuguesa para o ritmo brasileiro. Foi no Século XVIII que a modinha nasceu em Minas. As armas de guerra, os clarinetes, os violinos e as serpentes, como as violas de diversos tamanhos, de sete cordas tocadas com arcos de ferro e cerdas de cavalo, constituíram as primeiras orquestras mineiras.

Contribuição franciscana

Os franciscanos tiveram papel fundamental na formação religiosa e artística do povo mineiro. A eles, como aos clérigos seculares, devemos o grande desenvolvimento religioso e, simultaneamente, o estabelecimento da convivência social, que proporcionaram a organização civil e a forma regular do povo mineiro. Por estarem os bispos governantes tão distantes do território mineiro, muitos desatinos do clero e de fiéis compõem o cenário da história religiosa de Minas. Os bispados de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro disputavam a incorporação da terra.
A solução desse conflito aconteceu em 6 de dezembro de 1745, quando foi criado o Bispado de Mariana, que marcou uma nova ordem nos assuntos religiosos de Minas e foi, sem dúvida, o fato criador de uma era de grandes progressos espirituais.
Sob a ação do frei Manuel da Cruz e seus sucessores, aconteceu o florescimento das Ordens Terceiras, que construíram os mais belos templos. Estabeleceram o culto do Coração de Jesus e o de Nossa Senhora das Dores e Calvários, filiados aos Servitas de Braga, que desenvolveram a prática das comemorações da Semana Santa e comemorações de Corpus Christi.
A autonomia religiosa de Minas propiciou a organização eficiente de constantes obras missionárias, a criação do Seminário para melhor instruir a mocidade da capitania e a formação de um clero local.
Impressionante é a devoção a Santo Antônio em todos os quadrantes do território mineiro. O Santo, nascido em Lisboa, mas que ganhou o nome de Pádua, na Itália, onde viveu a maior parte de sua vida, é o campeão como padroeiro de municípios mineiros. Foi muito divulgado certamente em função de sua proximidade com São Francisco de Assis, amigo e comtemporâneo, cuja Ordem foi das mais atuantes na formação religiosa de Minas. Para se ter uma idéia da presença de Santo Antonio como padroeiro, citamos alguns dos municipios dedicados a ele, como Paracatu, Mateus Leme, Machado, Governador Valadares, Grão Mogol, Gouveia, Ipanema, Itutinga, Jacutinga, Lagoa Bonita, Curvelo, Seta Lagoas e Santo Antônio do Monte. Em segundo lugar na preferência, entre os santos, vem São Sebastião, com impressionante presença, sendo padroeiro de Pirapora, Ponte Nova, São Geraldo, São Gotardo, São Sebastião do Paraíso, Leopoldina, Cajuri, Cambuquira, Capitólio, Coimbra, Aimorés, Areado, Azurita, entre outros.