EDITORIAIS DO JORNAL
ESTADO DE MINAS POR OCASIÃO
DA REVOLUÇÃO DE 64
 

Trata-se do principal jornal mineiro, o mais importante dos Diários Associados, ainda dirigido por Assis Chateaubriand. Vale reler os editoriais de 1964, do jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte.

A Sorte Está Lançada
“Ninguém tem mais o direito de iludir-se a respeito da realidade brasileira. Abrem-se agora apenas dois caminhos ao Brasil: a democracia ou o comunismo. Qualquer raciocínio diferente só pode nascer da inconsciência, da ingenuidade ou da má-fé. O jogo ficou claro desde o comício do dia 13. Essa história de esquerda e direita também não tem mais sentido. Não há mais etapas intermediárias. O povo brasileiro está convocado a fazer uma grave opção: a democracia ou o comunismo. Não adianta querer mais mascarar a realidade. Chegamos já a uma etapa muito avançada para as contemporizações. Daqui para a frente, as coisas se precipitarão fulminantemente. A única resistência é a do Congresso. Os representantes do povo parecem dispostos a enfrentar a maré montante. Não têm armas, não têm mesmo nem uma opinião pública organizada para a defesa das instituições. Contam, porém, com idéias que compõem as tradições democráticas da nossa terra. Será o bastante?
Que acontecerá ao Brasil? Eis a pergunta que ocorre hoje a todos os homens clarividentes. Estamos numa esquina de nossa História. Nunca, desde a Proclamação da República, o país se colocou diante de decisões tão importantes e fundamentais. Trata-se de saber agora se o povo continuará livre ou não. O que ainda defende a democracia é a Carta Magna, sobre a qual investem os que pretendem de qualquer maneira inverter os caminhos do Brasil. A pretexto das reformas de base, contra as quais não se pode levantar qualquer objeção, quer-se modificar um dispositivo essencial ao regime democrático, que é o das inelegibilidades. Modificado este, estará garantido o continuísmo. Com a legalização do Partido Comunista, hoje já tacitamente legalizado, e com o voto do analfabeto, dar-se-á fatalmente a reeleição. Ninguém poderá superar o sistema de forças que será acionado pelo governo. O pleito surgiria apenas como uma espécie de plebiscito que garantiria mais um período de cinco anos ao atual Presidente da República.
Se a disputa decorresse num ambiente higienizado, sem que as armas do governo nela interviessem, se o voto do analfabeto não significasse a adesão ao sistema governista de dez milhões de brasileiros não familiarizados com as decisões políticas, então, admitir-se-ia a tese da reeleição. Mas o pleito irá ferir-se dentro de um quadro bastante sombrio, com a agitação nas ruas, e agitação artificial provocada pelos grupos comunistizantes, tornando-se inviável qualquer candidatura que não seja a do presidente. Os disputantes iriam apenas legalizar o continuísmo.
É possível, entretanto, que ainda haja bom senso. E que os homens responsáveis pelo destino do país recuem, permitindo que esta nação, pacífica e democrática, permaneça e que a família brasileira não se divida em dois campos inconciliáveis.
Este jornal, que se bateu pela posse do Sr. João Goulart, não mudou de rumo. Defenderá a legalidade, a Constituição, a paz e a segurança do povo brasileiro. Outros que incitem à revolta e preguem a desunião e a desordem. Nós permaneceremos dentro das linhas demarcadas pela conduta irrepreensível dos mineiros, nesta como em outras fases da vida nacional. Como força de equilíbrio e da harmonia, atuaremos no sentido de que sejam superadas as graves questões do momento, sem que o Brasil mergulhe na guerra civil, como querem alguns maus patriotas”.

Editorial de 18 de março de 64
O Dever dos Militares

“Se há um setor que não está corrompido no Brasil, graças a Deus, é o das Forças Armadas, incluídos o Exército, a Aeronáutica, a Marinha. Em Minas, devemos juntar a esse bloco de homens dignos e patriotas a Policia Militar, outra corporação que tem dado os mais admiráveis exemplos de amor à nossa terra.
Feliz a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices cívicos. A todo momento, essas corporações, comandadas por oficiais formados na melhor escola, a escola do patriotismo, da decência, da pureza de intenções e propósitos, nos oferecem o testemunho de sua identificação com os melhores ideais de nossa gente. O que elas têm no coração é um Brasil grande, progressista, respeitado, unido de norte a sul, de leste a oeste, trabalhando livremente num clima de ordem e de paz. Os nossos militares, quanto mais fundo e mais grosso é o mar de lama, estão recolhidos às suas casernas austeras, submetidos a um regime de vencimentos incompatíveis com as exigências da vida moderna. Hoje em dia, não há quem queira ser mais oficial do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, porque não se recebem nessas três armas soldos que permitam uma existência tranqüila. No entanto, os militares tudo suportam estoicamente, assistindo diante deles o espetáculo da mais deslavada corrupção, provocada pelo poder civil, pela baixa politicalha, pelo eleitoralismo grosseiro. Bastaria dizer que hoje um procurador de um dos institutos de previdência logo no primeiro mês de sua nomeação, sem ter serviço, indo à repartição meia hora por dia, quando vai, recebe mais do que um general que se submeteu a uma longa carreira, sujeito a mudanças amiudadas de residência, sendo obrigado a matricular os seus filhos cada ano em um colégio diferente, e com um regime de trabalho de dez horas por dia. É impossível, porém, enumerar aqui todas as injustiças de que são vítimas os militares. E não se queixam, não se desesperam, por amor ao Brasil. Pois bem: esses patriotas, que não contribuem para o abastardamento dos costumes públicos em nosso país, de quando em vez são forçados a corrigir os erros da politicalha, tomando o poder dos corruptos, dos caudilhos, dos extremistas de baixa extração, restituindo-o, limpo e puro, aos civis. Nunca advogaram em causa própria, ou melhor, nunca tomaram o poder em benefício próprio. Agem quando é preciso, a fim de restituir a tranqüilidade e a paz ao seio da família brasileira. Mas essa tolerância com os civis, que não estão sabendo ser dignos do poder, tem um limite. As imposições do patriotismo, que é tão aceso no meio militar, poderão levá-los a dissolver as assembléias que insistem em permanecer dando cobertura a políticos corruptos e aventureiros, a comunistas interessados em abrir aqui uma porta ao fidelismo cubano. O povo também está perdendo a fé nas soluções civis. Vê a volta das raposas de baixa politicalha com espanto e nojo, porque compreende que a agitação vai continuar, a corrupção idem, o assalto aos cofres públicos, a compra de fazendas e apartamentos com dinheiro roubado da nação. O comando revolucionário não aceitará agora isto. Quer o expurgo, a higienização do meio político, a imobilização da gangue que infelicitava o Brasil. Os corruptos, onde estiverem, terão que pagar por seus crimes. Se estiverem no Parlamento alguns deles, terão que ver cassados os seus mandatos, os mandatos que não souberam honrar, traindo ali a democracia. Se estiverem os totalitários vermelhos no mais alto tribunal de justiça do País, há que se impor-lhes as sanções da própria lei que eles impõem a outros. Sem esse expurgo, feito sem violência, mas dentro da legislação de defesa do povo e do regime, não estará completa a revolução.
Se tolerarem qualquer transigência com os objetivos da revolução, os militares serão novamente traídos pela parcela dos civis corruptos e indignos.
Homens com a alta dignidade, a compostura cívica, a bravura pessoal, a vida limpa e exemplar de um general Carlos Luís Guedes – que é um militar admirável – não podem permitir que se faça a reconstrução do Brasil em bases falsas. Essa reconstrução tem que ser, antes de tudo, moral. Foi por isto que todos nós, que estivemos na luta arrostando a empáfia dos baderneiros, sujeitos diariamente a assaltos e golpes dos extremistas, fizemos uma revolução.
Os militares não deverão ensarilhar suas armas antes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria. Cometerão um erro, embora erro de boa-fé, se aceitarem o poder civil, que está aí organizado para assumir as responsabilidades da direção do país. Terão que impor um saneamento, antes de voltar aos quartéis”.

Editorial de 5 de abril de 64

Observe-se que o próprio jornal, em editorial, defende cassações de mandatos e pede apuração severa nos casos de corrupção. Os diretores do jornal à época, seus editores, eram homens da mais alta responsabilidade, credibilidade e coragem. Não se pode admitir que não estivessem interpretando o mais fielmente possível o pensamento dominante no povo de Minas Gerais, naquele grave momento. Depois, como é natural, e não foi diferente, alguns passaram a discordar disto ou daquilo e outros até totalmente dos rumos tomados pelo regime, que recrudesceu em 68, abriu em 79, com o final do Ato Institucional 5, e consolidou a abertura quando da mudança de poder para uma chapa de oposição, no Colégio Eleitoral, em 1985. O regime militar não foi derrubado, mas encerrou o seu ciclo em cronograma elaborado pelo Presidente Ernesto Geisel e cumprido pelo Presidente João Figueiredo. Um acabou com os atos institucionais e outro fez a proposta de anistia ampla, geral, irrestrita e recíproca, em princípio. A reciprocidade foi posteriormente rompida em parte com a perseguição explícita a alguns oficiais das Forças Armadas e ricas compensações a atingidos direta ou indiretamente por atos revolucionários, inclusive através de pensões previdenciárias, dezenas de vezes superiores às percebidas pelos brasileiros em geral. Os militares atingidos, em número superior a quatro mil, tiveram suas patentes devolvidas como se tivessem feito carreira integral, alguns no último posto da hierarquia.