OS DIAMANTES
 

Os antigos acreditavam que a posse de um diamante servia para atrair amores, fortalecer o prestígio do homem entre as mulheres. Essa crença era fundada na realidade e ainda hoje nenhum de nós poria em dúvida a ação mágica dos diamantes, pelo menos nesses casos. É por isso que se dizia que o amor era seu companheiro inseparável.
A palavra diamante veio do grego “adamas”, que significa indomável. A variação latina para “diamans” mostra que o povo lácio conhecia e apreciava a rainha das pedras preciosas.
O diamante tinha, ainda no Oriente, importância de caráter filosófico. Era considerado uma preciosidade do tesouro divino, revelado aos homens para lhes aumentar seu patrimônio de força e glória.
No continente europeu, através dos tempos, o diamante não perdeu com sua divulgação o prestígio mágico do mistério.
Em 1466, o comércio do diamante passa por transformações radicais, quando, em Bruges, Louis Berguin inventou o processo de talhar as pedras. O brilhante, tal qual o conhecemos em nossos dias, foi obra do cristão-novo português Hortêncio Borges, residente em Veneza. Os judeus, por uma natural vocação e por serem os mais antigos mercadores de diamante, guardaram, durante séculos, um verdadeiro monopólio no comércio de lapidação dessas pedras. Seus núcleos principais eram Londres, Paris, Anvers e Amsterdam, por onde passavam forçosamente todas as pedras vindas do Oriente antes de ser entregues ao mercado.

Em 1714, o faiscador Francisco Machado da Silva, partindo uns blocos de cristal, ou um conglomerado dele, para fazer um fogo de trempe, encontrou uma pedrinha dura e clara, que guardou como curiosidade, dando-a depois a Luís Botelho de Queirós, no Serro do Frio. O cristal teria sido encontrado na lavra de São Pedro, no Córrego do Machado ou Pinheiro, junto à Serra da Lapa. Na mesma época, e próximo do local desse encontro, no Córrego Mosquito, deparou-se Machado com outras pedras iguais à anterior, dando umas a José Leitão e outras ao capitão de dragões José de Almeida e Vasconcelos. Esse fez lapidar uma delas e verificou tratar-se de diamantes. O segredo, porém, foi guardado pelos interessados, que continuaram a obtê-las em grande quantidade dos ingênuos faiscadores de ouro, que as cediam aos quilos.
Sete anos depois, em 1721, na lavra aurífera do Córrego Morrinhos, do português Bernardo da Fonseca Lobo, um dos seus feitores encontrou uma dessas pedras e a entregou ao patrão. Já havia um verdadeiro derrame delas, que iam sendo encontradas em quase todas as lavras auríferas.
Bernardo da Fonseca Lobo viajou, em 1726, para Vila Rica, levando consigo um lote de diamantes brutos, presenteando Manoel de Fonseca, secretário do governador D. Lourenço de Almeida.
D. Lourenço reconheceu logo que se tratava de diamantes. Nada disse a Bernardo, pedindo-lhe que mandasse mais “dessas pedrinhas”. E assim foi feito. Mesmo depois de descobrir a verdade sobre as pedras, Bernardo continuou a enviá-las ao governador, manifestando apenas uma certa irritação.
Bernardo, voltando ao Serro do Frio, espalha a notícia, sem guardar a menor reserva. Divulgado que eram diamantes, os moradores da redondeza, os do caminho da Bahia, aventureiros de vários lugares distantes e forasteiros ambiciosos de toda parte correram para as ricas terras. Quando surgiu a notícia do ouro nas denominadas Minas Novas, Bernardo, que não explorava os diamantes, partiu, deixando suas lavras e roças entregues a um moço pobre, com quem ele vivia, chamado José Ribeiro. Logo depois, chegava ao Serro do Frio o novo ouvidor Antônio Ferreira do Vale e Melo, um desses peritos na “ardilosa simulação”, que incumbiu José Ribeiro de procurar seu patrão, que se encontrava nas Minas Novas do Fanado, dizendo-lhe que tudo era ruína e prejuízo em suas terras de Morrinhos e Caeté-Mirim.
Bernardo da Fonseca Lobo, que na história aparece como um perfeito parvo, vendeu ao ouvidor Vale e Melo por cem oitavas de ouro suas riquíssimas lavras. Maiores e mais numerosos diamantes começavam a aparecer em diversos locais do território de Minas Gerais.
A rápida divulgação da existência de riquíssimos depósitos diamantíferos criara a impossibilidade de se enganar, por mais tempo, a Coroa de Portugal. D. Lourenço de Almeida, advertido dos perigos que estava correndo por ocultar a existência dos diamantes em Minas Gerais, decidiu, então, se precaver de prováveis castigos por sua infiel ganância. Enviou um comunicado à Corte, relatando o evento num pessimismo fingido, dando a entender descrença no negócio, sem dar a real noção da abundância de diamantes nessas terras.
A resposta de Lisboa foi severa. D. João questionou a demora do comunicado, uma vez que ele já tinha sido informado por outras fontes sobre a descoberta dos diamantes nas Minas Gerais. Ordenou que o governador conseguisse mais informações sobre os locais de exploração e repassasse para a Coroa o quinto que lhe era devido.
Em 28 de janeiro de 1732, circulava a notícia da chegada de um soldado de Vila Rica com documento, assinado pelo governador D. Lourenço de Almeida, transmitindo as determinações de uma Carta Régia, desaprovando a cobrança dos quintos reais sobre os diamantes. O rei determinava que se suspendesse esta forma de taxação e que fossem despejados os moradores das terras diamantinas, que seriam divididas em lotes, dados em arrendamento, mediante pesadas contribuições. Afirmava ser este o melhor sistema, porque assim se procedia no Oriente, nas Índias e na Golconda. Marcada por uma frieza calculista, esta carta régia, de 16 de março de 1731, determinava a suspensão instantânea de todos os trabalhos de mineração na vasta região diamantífera.
A resistência coletiva impediu o cumprimento desta ordem. Ninguém se apresentou aos arrendamentos e as extrações de ouro e diamantes estacaram subitamente. Os quintos reais não eram arrecadados porque ninguém podia confessar que estava trabalhando. Os diamantes continuaram a circular clandestinamente e ganharam o litoral. Tal fracasso desorientou o governador e o capitão general de Minas, D. Lourenço de Almeida.
A Corte de Lisboa inquietava-se, pois se sabia lesada e premeditava um meio de aumentar sua parte nessa colheita de lucros. Ao findar o prazo desse sistema, entrava para o governo lucrativo de Minas D. André de Melo e Castro. O novo governador, acompanhado de Martinho de Mendonça, começou a tomar as primeiras providências para sustar a produção de diamantes, conforme sugestões de mercadores, que tinham impressionado a Coroa portuguesa por sua astúcia para negócios.
O número de diamantes aumentava cada vez mais, para euforia dos mais diferentes mineiros. Brancos, pretos, ricos, pobres e remediados se dedicavam à tarefa de revolver rios, córregos e ribeiras, desmontando grupiaras e tabuleiros, soterrando tudo na pressa de encher as bolsas de diamantes. Suspeitavam que, em pouco tempo, chegaria uma ordem régia sustando os trabalhos ou que as pedras, numa traição da natureza, acabassem. Policiar esta multidão e arrecadar o imposto foi impossível.
Em 1734, foi criada, no Arraial do Tijuco, uma Intendência do Diamante, sendo nomeado, para comandá-la, o desembargador Rafael Pires Pardinho, vindo de Lisboa. Determinava que todo diamante que se extraísse das minas e que pesasse mais de 20 quilates ficaria pertencendo à Real Fazenda. Decretou o fechamento das minas, o despejo dos moradores das terras e a demarcação de uma área dentro da qual se executariam essas medidas. Foi um período de miséria, desordem e confusão, resultado de providências inócuas e de violências inomináveis. Enfim, iniciava-se, assim, a luta, que se tornaria secular, entre os interesses dos mineiros e os da Coroa portuguesa.
Martinho de Mendonça, com o apoio de Rafael Pires Pardinho e D. André de Melo e Castro, demarcou as terras diamantinas – atitude puramente administrativa que jamais prevaleceu, pois, à medida que surgiam diamantes fora desses limites, estendia-se automaticamente a jurisdição do intendente dos diamantes.
Todas as leis, regulamentos e sistemas de polícia e de salvaguarda foram ineficazes para evitar a extração e contrabando dos diamantes. Tais decisões oficiais serviram apenas para iniciar uma história dramática, desenrolada por um século nas duas paragens das terras diamantinas de Minas Gerais.
Os cristãos-novos portugueses eram os melhores e mais abalizados conhecedores dos segredos do comércio de diamantes, que dominavam em todos os seus aspectos. Assim, mais de 600 deles foram despachados de Londres, da Holanda e de Flandres, saltando nos portos e correndo para Serro do Frio. Compravam as pedras e as negociavam, assegurando, em pouco tempo, o monopólio dos abastecimentos, do comércio e da direção do contrabando organizado, pela estrada da Bahia e pelo litoral deserto, onde naus inglesas e holandesas vinham buscar a preciosa carga.
Os mercadores, logo que adquiriam os lotes, escondiam a mercadoria e, dias depois, não se encontrava uma só pedra bruta para comprar em parte alguma. Faziam lavrar em partidas pequenas e proporcionais as limitações do consumo que impunham para maior valor das pedras. As de menor fundo e pior água eram remetidas a Constantinopla, pois na Turquia tinham um largo consumo. As maiores e as mais belas eram passadas para os ricos da Polônia e da Corte russa. As restantes se distribuíam pela Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, Itália, França, Espanha e Portugal. Assim era o comércio de diamantes por ocasião da descoberta das jazidas de Minas Gerais.
Antônio de Oliveira Campos, um português que mantinha boas relações com Diogo de Mendonça, da Corte Real, sugeriu que o meio para sustar o derrame de pedras no mercado europeu seria que todos os diamantes chegados do Brasil fossem recolhidos à Casa da Moeda de Lisboa.
A exploração, feita de maneira desastrosa, inutilizaria, em pouco tempo, as jazidas de diamantes no Brasil. Em dezembro de 1733, uma crise nesse lucrativo comércio se anunciou. Os contratadores, ou seja, os compradores que posteriormente os vendiam no mercado europeu, se reuniram e propuseram a João Gore, um empresário que conhecia como ninguém o negócio, fazer uma representação a Sua Majestade. Usariam como alegação a queda do valor do diamante. Como a oferta era maior do que a procura, os preços caíram e, não sendo este produto gênero de primeira necessidade, os estoques começavam a sobrar. Nas Índias, o grão-mongol teve o cuidado de controlar a ida de diamantes para a Europa.
Francisco Salvador, João Gore e Oliveira Campos já tinham bloqueado o negócio dos diamantes, que agora correria ao sabor dos seus interesses. Durante todo o período colonial, a Coroa portuguesa baseou a política administrativa, fiscal e econômica dos diamantes nas informações de cristãos-novos respeitados. Os interesses de ambas as partes coincidiam. No entanto, no que se refere à corrupção generalizada neste negócio, não interessava a nenhum dos envolvidos que esta fosse realmente combatida pelas autoridades reais.
Escreve um perito que visitou as minas no final do Século XVIII: “Durante 30 anos, esses Contratadores lavraram e desperdiçaram terras diamantinas que dariam para trabalhar com lucro mais de 200 anos”. O extrativismo ambicioso sepultou riquezas debaixo de entulhos, deixados pelo desleixo dos lavradores, fechou córregos e soterrou diamantes e ouro em profundidades diversas. Os territórios de exploração estavam marcados pela ação gananciosa dos homens que lá trabalharam na montagem de riquezas. Baseados em fraudes e falsidades, que iam desde o negro do garimpo aos contratadores e funcionários régios, mercadores de Londres, de Antuérpia e Amsterdam viviam empenhados em cometer algum tipo de deslize, mesmo que fiscal, como se a honra e a honestidade fossem incompatíveis com os negócios de ouro e diamantes.
Em Minas, no distrito do Serro do Frio, partindo da Vila do Príncipe, estavam os principais pontos de referência da futura área diamantina. São eles:
Arraial do Tijuco — Próximo à Serra da Lapa, fundado junto da lavra de Jerônimo Correia, natural da Bahia e estabelecido na região em 1713
Arraial do Milho Verde — Fundado nas lavras de Manuel Rodrigues Milho Verde, natural da Província do Minho, em Portugal
Arraial de São Gonçalo — Junto da ermida do santo que lhe dá o nome, construída em 1729 por Domingos Barbosa, natural de Amarante, Portugal
Arraial do Rio Manso — Fundado em 1719 pelo paulista José de Godói, que escolheu o nome pela mansidão do rio que passa no meio do arraial
Arraial Caeté-Mirim — Fundado pelo paulista Antônio Raposo, em 1714
Arraial de Inhaí — Nome de um bugre manso e batizado, Tomé Ribeiro, relembrando o seu anterior, quando pagão
Arraial de Gouveia — Seu nome é em homenagem à viúva portuguesa Francisca de Gouveia, que tinha ali suas lavras, em 1715
Arraial de Piraúna — Fundado em 1713, nas lavras de João Lopes Delegado, português do Minho.