SÉCULO XIX:
CONSOLIDAÇÃO
DE MINAS GERAIS
 

O Século XIX marca a consolidação de Minas Gerais. Foi ao longo desse período, com o fim do Ciclo do Ouro, que a Província ganhou o território e o perfil cultural, econômico, social e político que conhecemos hoje.
Com o fim do Ciclo do Ouro, a agricultura se volta para a pecuária e a lavoura cafeeira – esta última iniciada na Zona da Mata. Minas passa, então, a ter uma razoável agricultura de subsistência, diminuindo sua dependência do Rio de Janeiro e de São Paulo. Hoje, Minas é uma potência agrícola e seu café, agora no sul do Estado, é considerado de qualidade especial e obtém cotação internacional superior à dos demais.
A mineração e o aproveitamento das reservas de ferro da região também ganharam força nesse período. E, em paralelo, tiveram início as primeiras unidades têxteis, aproveitando a produção local de algodão, e as pequenas indústrias alimentícias, valendo-se da ferrovia e do açúcar.
Além do progresso econômico, o Século XIX ainda se destaca pela consolidação político-cultural do Estado. A reboque das lutas pela independência, a marca dos inconfidentes fez de Minas o principal ponto de movimentação cultural e política, depois do Rio de Janeiro, capital do Império. E começou uma grande escola de notáveis pela habilidade, espírito público e paixão pela atividade política. A marca do jornalismo mais ativo, da política como carreira, passou a se fazer notar no país e na própria Província. O curioso é que o leitor encontrará na representação política contemporânea os mesmos sobrenomes de então, comprovando uma tradição passada através das gerações.

Abaixo, alguns políticos notáveis do Século XIX:


Visconde de Abaeté — Nascido em Lisboa, Antônio Paulino Limpo de Abreu desde os 28 anos exerceu cargos eletivos, como o de deputado por Minas. Durante 57 anos de vida política, presidiu o Senado por 12 anos, foi ministro 15 vezes, na regência de Feijó e no II Império, presidente do 14º Gabinete do Império e governador da Província, com apenas 35 anos.
Evaristo da Veiga — O mais combativo jornalista no I Império, nasceu no Rio, em 1799, mas foi fazer política em Minas, onde se elegeu deputado. Na verdade, a vocação política absorveu-o a partir de 1827, quando ingressou no recém-fundado jornal Aurora Fluminense, do qual logo se tornaria proprietário. Fundador da Sociedade Defensora da Liberdade, empenhou-se na defesa das liberdades constitucionais e criou um estilo de “moderação combativa”, conciliando a ordem e o decoro com as reivindicações liberais. Como deputado por Minas Gerais, foi o artífice máximo da eleição de Feijó, em 1835. No entanto, separou-se logo dos seus companheiros de luta liberal por se sentir desgostoso com a orientação autoritária do regente. No mesmo ano das eleições, fechou o jornal e partiu para uma longa estada em Minas. Teve muitos inimigos, principalmente depois da representação que redigiu em 17 de março, assinada por 23 deputados e por um senador. Foi perseguido até o fim da sua vida, em 12 de maio de 1837. O filho, o mineiro Evaristo da Veiga Filho, herdou sua vocação política, tendo exercido mandatos de deputado, senador e presidente da província do Sergipe.
Marquês de Sapucaí — Cândido José de Araújo Viana, filho do capitão-mor Manoel de Araújo e de dona Marianna Clara Cunha, nasceu em Congonhas de Sabará, hoje Nova Lima, em 1792. Foi mestre de D. Pedro II e de seus filhos, presidente das províncias de Alagoas e do Maranhão, ministro de Estado, conselheiro de Estado e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro por mais de 30 anos. Presidiu também o Senado e a Câmara dos Deputados. Em Coimbra, fez o curso de medicina e, no mesmo ano de sua formatura, foi nomeado juiz de comarca. Apesar de cultivar as letras e as ciências, pouco escreveu e publicou, abrindo exceção apenas para seus relatórios como ministro de Estado e presidente de província.

Dom Pedro I


Marquês de Paraná — Foi deputado e senador por Minas, presidiu a província do Rio de Janeiro, em 1841, e a de Pernambuco, em 1849, além de ter sido ministro diversas vezes. Montou o primeiro Gabinete de Conciliação do Império, unindo liberais e conservadores e contribuindo para a tranqüilidade do Império durante mais de 30 anos. Este espírito é que no Século XX, após 1964, reuniu sob a legenda Arena antigos pessedistas e udenistas. O Marquês de Paraná morreu no Rio de Janeiro, onde deixou sua família. Na sua descendência, são identificados alguns nomes de expressão, como o arcebispo de Mariana, D. Luciano Mendes de Almeida, seu irmão, o acadêmico Cândido Mendes, e os diplomatas Luís Filipe de Seixas Correa e Antônio Correa do Lago, além dos Leão Teixeira, entre tantos outros. O Marquês de Paraná era a grande admiração e inspiração de Tancredo Neves, que sonhava fazer um governo de conciliação nacional, sem revanchismos e olhando para o futuro, sem jogar pedras no passado.
Lucas José de Alvarenga — Nascido na Vila de Sabará a 19 de fevereiro de 1768, faleceu no Rio de Janeiro a 7 de junho de 1831. Bacharel em direito pela Universidade de Coimbra e tenente-coronel de Milícias em Portugal, foi governador de Macau, de onde se retirou logo que soube que o Brasil era independente, viajando grande parte da Ásia. Foi poeta repentista muito aplaudido desde os 17 anos de idade. Entre os seus escritos, estão Estatira e Zoroastes, memória sobre a expedição do governo de Macau em 1809 e 1810 em socorro do império da China contra os indulgentes piratas chineses, e Artigo Adicional à Memória.
Bernardo Pereira Vasconcelos — Filho de Diogo Pereira Vasconcelos e Maria do Carmo Borradas, nasceu em Vila Rica, Ouro Preto, em agosto de 1795. Seguiu para a Universidade de Coimbra, em 1813, onde fez o curso de direito. Formou-se em 1818 e um ano depois entrou para o serviço da magistratura com a nomeação de juiz-de-fora de Guaratinguetá. Foi eleito deputado à Corte pela província de Minas, em 1826, reeleito e escolhido senador, em 1838. Foi ministro da Fazenda, em 1831, da Justiça, em 1837, e do Império, em 1840 – mas esse último apenas por nove horas, tempo que ele precisava para mandar à Câmara Legislativa o decreto de adiamento consecutivo à maioridade de D. Pedro II, fato a que se seguiu a reação e sua queda. Nos últimos anos de sua vida, sofreu de uma infecção da medula espinhal, o que resultou numa paralisia das extremidades inferiores. Morreu, vítima de febre amarela, em 1o de maio de 1850. Sobre ele, que também foi grão-cruz da ordem do Cruzeiro e da Legião de Honra da França, escreveu Justiniano J. da Rocha.
D. Beatriz Francisca de Assis Brandão — A filha do sargento-mor Francisco Sanches Brandão e de Izabel Feliciana Narciza de Seixas nasceu em Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto, a 29 de julho de 1779. Por desejo de seus pais, sua educação se limitaria às noções das primeiras letras e da música. Mas dona Beatriz, aproveitando a boa vontade de um velho amigo de sua família, aprendeu também francês e italiano e dedicou-se ao estudo da literatura. Publicou várias obras em prosa e poesia e foi sócia honorária do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Morreu depois de 1860. O registro vale pelo pioneirismo da mulher mineira, na época em que se limitava a participação a poucas figuras, como Bárbara Eliodora e a própria Marília de Dirceu.
Cônego Francisco Pereira de Santa Apolônia — Apesar de não constar como presidente do 2o Governo Provisório, é provado, pelas assinaturas em atos e ofícios, que o cônego assumiu a presidência após o afastamento de D. Manoel de Portugal e Castro. Como vice-presidente, esteve à frente do governo por mais cinco vezes.
Visconde de Araxá — Nasceu na antiga Vila de São João del-Rei, em 1812. Formou-se em ciências jurídicas e sociais na Faculdade de São Paulo, em 1833. Político liberal, foi eleito deputado provincial em 1842 e tomou parte da rebelião que tanto agitou as províncias de São Paulo e Minas Gerais. Foi eleito deputado à Assembléia Geral Legislativa, mas não exerceu o mandato, pois essa foi dissolvida antes. Por ter apoiado a rebelião, foi obrigado a refugiar-se em Valença, perto dos familiares, onde abrira banca de advogado. Em 1o de abril de 1848, foi nomeado presidente da província de São Paulo. Colaborou no Correio Mercantil, escrevendo artigos sobre literatura e história.
Varnhagen, Visconde de Porto Seguro — Desejava ser soldado de Pedro I e, em 1842, foi promovido a oficial do Imperial Corpo de Engenheiros. Mais tarde, no entanto, encontrou sua vocação na diplomacia. Durante muito tempo entregou-se a pesquisas históricas, coroando sua carreira no cargo de enviado extraordinário em Viena. O historiador, cartógrafo, poeta, dramaturgo, biógrafo e matemático recebeu também os títulos de comendador da Ordem da Rosa e cavaleiro de Cristo; grão-cruz da Ordem Rumiano, de São Estanislau, da Ordem Austríaca da Coroa de Ferro e de Carlos III. Além disso, foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Real de Ciências de Lisboa e de muitas outras associações científicas e literárias.

Afonso Celso de Assis Figueiredo — Nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 31 de março de 1860. Formou-se em direito pela Faculdade de São Paulo, em 1880. Eleito deputado geral, pelo 20º distrito da então província de Minas Gerais, exerceu o mandato durante os oito anos que precederam a revolução que implantou a República no Brasil. No entanto, afastou-se da política por não concordar com as convicções implantadas pelo novo regime. Católico fervoroso, recebeu do Papa o título de Conde de Afonso Celso. Escritor, membro da Academia Brasileira, presidente perpétuo do Instituto Histórico, tem em seus numerosos livros os discursos e artigos de colaboração no Jornal do Brasil, artigos sobre o Vaticano e o mundo moderno, especialmente sobre a posição do Brasil em face da Santa Sé. Filho do último chefe de governo da monarquia, Visconde de Ouro Preto, acompanhou o banimento, em 1889, da família imperial. Imprescindível consultá-lo para qualquer estudo sobre Pedro II. Pai e filho deixaram um legado de patriotismo e ética. A família ficou no Rio e marcou presença na diplomacia. O Visconde de Ouro Preto acompanhou o Imperador no exílio, até sua morte. É figura tão fantástica que foi ministro da Marinha com apenas vinte um anos. Era homem de sociedade, requintado nos hábitos. Em Paris, onde viveu muitos anos, foi um dos comensais de Eduardo Prado.
Visconde de Caeté — José Teixeira da Fonseca e Vasconcelos nasceu em Sabará, em 1767. Formado em direito pela Universidade de Coimbra, seguiu carreira da magistratura, nos cargos de intendente do Oiro, juiz de fora e ouvidor de Sabará, chegando a desembargador. Primeiro presidente da província de Minas Gerais, em 1826, foi membro e vice-presidente da primeira junta do governo provisório da mesma e deputado na Assembléia Constituinte, dissolvida violentamente em 1823. Compôs um dicionário da língua tupi que, infelizmente, se perdeu. Morreu em 1832.
Teófilo Benedicto Ottoni — Nasceu na cidade do Serro, Minas Gerais, em 1807. É filho de Jorge Benedicto Ottoni e Rosali Benedicto Ottoni, irmão de Christiano Benedicto Ottoni e sobrinho de José Eloy Ottoni. Fez curso na Academia da Marinha e exerceu o cargo de guarda-marinha, posto de que teve de abrir mão devido a perseguições que lhe acarretaram suas idéias ultraliberais, intoleráveis na época. Foi eleito deputado provincial em 1835. Em 1842, foi preso e processado como um dos chefes da rebelião mineira. Considerado um dos maiores paladinos das idéias liberais, Teófilo sempre alimentou idéias republicanas, sendo grande sua influência política. Depois de fundar a empresa de navegação e colonização do Mucury e ter-se transformado em sócio do Instituto Geográfico Brasileiro, regressou a Minas, com o objetivo de fundar o jornal A Sentinela do Serro, que se destinava a propagar as idéias republicanas. Já havia sido colaborador em outras publicações, como o Ecco do Serro e o Astro de Minas. Entre 1845 e 1848, como deputado da Assembléia Geral Legislativa, foi chefe da maioria oposicionista e a ela deveu os votos para vice-presidente da Câmara em 1846.
Cristiano Ottoni — Nasceu em 21 de maio de 1811, na Vila do Príncipe, hoje cidade do Serro. Foi o primeiro diretor da estrada de ferro D. Pedro II e presidente; a princípio, por eleição da companhia construtora; depois, por designação do governo imperial. Continuou neste cargo até 1865, quando a estrada passou a ser propriedade do Estado. Foi ainda deputado por Minas em três legislaturas, de 1830 a 1837, sendo eleito também pelo Rio de Janeiro. Foi senador por Minas e pelo Espírito Santo, além de sócio benemérito da Sociedade Amante da Instrução e do Instituto Histórico da França e Arcádia Romana. Deixou descendentes ilustres. O grande mecenas do Rio no Século XX, Raimundo Castro Maia, era Ottoni, assim como o advogado João Maurício Pinho, casado com Maria Alice Salles Coelho, de outra família tradicional mineira. O terceiro irmão, Ernesto Benedito, foi médico em Minas e no Rio de Janeiro.
Senador Vergueiro — O português Nicolau Pereira de Campos Vergueiro nasceu em 1778, em Val da Porca, antigamente comarca de Chacim, hoje Macedo de Cavaleiros. Bacharel em direito pela Universidade de Coimbra, transferiu-se para o Brasil em 1803. Foi senador por Minas Gerais, em 1828. Morreu no Rio de Janeiro, em 1859.
Marquês de Baependi — Manoel Jacinto Nogueira da Gama foi conselheiro de Estado e oficial-general do Exército, senador por Minas Gerais, de 1826 a 1847, e presidente do senado, em 1838.
Marquês de Sabará — João Gomes da Silveira Mendonça foi conselheiro de Estado e oficial-general do Exército, nomeado senador em 1826.
Marquês de Valença — Estevão Ribeiro de Rezende foi magistrado e conselheiro honorário; foi nomeado senador em 1826. Morreu em 1838.
Sebastião Luiz Tinoco da Silva — Magistrado nomeado senador por Minas Gerais em 1826. Morreu em 1839.
Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá — Proprietário de terras e senador por Minas Gerais, em 1826. Morreu em 1835.
Paulo Barbosa da Silva— Este foi o homem público de maior êxito na difícil arte de permanecer no Poder, atuar com eficiência, permanentemente prestigiado e ocupando bons postos. Nunca almejou, por exemplo, ser Primeiro-Ministro, comandar gabinetes, determinar políticas. Mas desde muito jovem, este hábil político, inteligente, preparado, construiu uma carreira de homem influente, sempre perto do Soberano ou usufruindo de bons cargos, como o de Ministro – como na época eram chamados os hoje embaixadores. Paulo Barbosa da Silva nasceu em Sabará, entrou para a vida militar, graduou-se como engenheiro. Em 1826 – com trinta e cinco anos, foi, por conta do governo, com um grupo de graduados estudar na Europa e, como adido na Legação do Brasil em São Petersburgo, atuou nas negociações do casamento de D. Pedro I com D. Amélia. Voltando ao Brasil, foi indicado para o cargo de Mordomo da Casa Imperial, depois de curta passagem pelo Exército. Na intimidade da Corte, influiu na formação do Imperador Pedro II, foi por ele confirmado no cargo de Mordomo, após a maioridade. Junto com Aureliano Coutinho, deputado mineiro, ocupou múltiplos espaços no Poder. Conseguiu agregar a função de Mordomo, a de administrador dos palácios, assumindo até a agenda do Imperador. Deve-se a Paulo Barbosa a compra das terras em que a Corte se instalou em Petrópolis, a própria formação da cidade de veraneio, sendo, portanto mais do que justificada a rua que leva o seu nome no centro daquela cidade fluminense. Paulo Barbosa, depois de tanto influir, acabou sofrendo algum desgaste, o que o levou a se afastar da Corte para um longo período na Europa. Mas é claro que em missão oficial, como Ministro em Viena e Berlim. Retornando ao Brasil, voltou a exercer a mesma função, ajudado pela sua amiga Condessa de Barral – e Condessa da Pedra Branca – a pessoa mais chegada ao Imperador. Pode-se concluir que este mineiro de Sabará, por mais de meio século influiu e mandou no gabinete do Imperador, podendo até ser comparado a Talleyrand, que teve esse tipo de influência no tempo de Napoleão. A diferença é que, como bom mineiro, Barbosa não exercia a função de Ministro, mas fazia e desfazias ministros. Completa, com o Marques do Paraná, o perfil do que vieram a ser os políticos do PSD mineiro desde 30 até o final do regime militar, em 1985, no século XX. Alkmim, Capanema, Israel Pinheiro, para ficar em alguns exemplos, começaram no Estado Novo de Vargas, ficaram bem com Dutra e na volta de Getúlio, chegaram a altos cargos com JK e, na Revolução de 64, Alkmim foi vice de Castelo Branco, Israel governador eleito de Minas e fundador da ARENA, partido do regime, e Capanema chegou ao Senado pelo mesmo partido.