Apresentação
 

Minha intenção inicial era a de condensar a rica obra de meu avô, Augusto de Lima Júnior, sobre a História de Minas Gerais, especialmente das suas origens à Inconfidência, para manter sua contribuição à historiografia mineira viva e lembrada. Este aproveitamento está nos primeiros capítulos deste livro.
Mas, entusiasmei-me, fui pesquisando, conversando, avaliando, lendo o que tem sido publicado sobre os dois últimos séculos e daí a alterar os rumos do projeto foi um passo.
O amor à verdade e a coragem para assumir posições nem sempre “politicamente corretas” marcam o legado de Lima Júnior a Minas e ao Brasil. E este pode ser conferido em sua obra, que é, senão a maior, pelo menos uma das maiores referências dos historiadores modernos. Nela, ficam claras a militância por Minas, a defesa de seu patrimônio histórico, a exaltação de seus heróis e mártires e seu pioneirismo na moderna imprensa em Minas, conforme registram André Carvalho e Waldemar de Almeida Barbosa no Dicionário Biográfico da Imprensa Mineira.
Com o objetivo de emprestar emoção, entusiasmo, admiração e fidelidade aos fatos históricos, toquei o livro, acrescentando documentos que dispensam comentários. Assim foi com a Revolução de 64, iniciada em Minas, pelos mineiros, que a paixão política – e ideológica – por vezes leva a incompreensões e injustiças. O chamado período militar cometeu seus erros, especialmente no que toca a restrições à liberdade política e à ação dura na repressão aos que pegaram em armas ou estiveram na periferia desses movimentos. Mas, no momento em que foi feita, a Revolução unia o que existia de representativo no Brasil e em Minas. Senão, 48 horas não teriam sido suficientes para acabar com qualquer tipo de resistência.
A leitura dos manifestos e de dois editoriais do mais importante dos jornais mineiros fala mais alto do que meras opiniões com base na emoção. Por isso, são publicados no final deste livro. A grande obra, nas estradas, pontes, usinas hidrelétricas, telecomunicações, portos, aeroportos, essa é conhecida pelos mineiros e brasileiros.
A presença do homem mineiro – ou daqueles formados no espírito e no convívio com os mineiros – foi outro destaque que procurei exaltar, provocando outros a um estudo mais profundo, quem sabe na criação de um dicionário de políticos, jornalistas, intelectuais, artistas e empreendedores de Minas Gerais.
A força de Minas não raro emana da capacidade de seus filhos, na arte da habilidade, na ousadia empreendedora, na coragem dos grandes gestos, na postura discreta diante do sucesso. Por isso, é uma referência positiva entre os demais brasileiros, habituados, ao longo da História, a encontrar nas montanhas a conciliação com dignidade e grandeza. Em alguns momentos, preocupei-me por colocar uma dose de emoção, de convicções e julgamentos muito pessoais na narrativa. E assim o fiz, confortado ao verificar que o grande mestre João Camilo de Oliveira Torres, especialmente no quinto volume da História de Minas Gerais, empresta seu liberalismo ao comentar episódios que viveu e testemunhou.
Outro objetivo foi proporcionar aos que visitam a terra mineira, suas cidades históricas, um apanhado dos principais fatos da formação, da presença mineira, para que todo esse acervo cultural possa ser melhor entendido.
A força econômica, a industrialização e a agricultura moderna são abordagens superficiais, mas suficientes para que, neste início de terceiro milênio, se conheça o grau de desenvolvimento econômico, tecnológico e social da terra dos inconfidentes, que, antes de tudo, lutaram pelo progresso com justiça.
Ao listar tantos mineiros ilustres, na literatura, na política, nas artes, no jornalismo, na administração, o fiz consciente de que as omissões seriam muitas. Peço perdão aos omitidos. E deixo aqui o desafio de corrigir tais omissões a outros autores, que venham consultar ou criticar nosso trabalho.
Quanto à questão mais polêmica, a parte em que ponho em dúvida a existência de Aleijadinho, peço um instante de meditação de cada leitor, no sentido de que algo seja feito para retirar emoção e dar um sentido à História. Não podemos, no mundo do DNA, da Internet e do avião, nos ater a uma história criada há 150 anos, requentada há 50, em que as obras do suposto artista citado são todas “atribuídas”, o que por si só já justificaria mais cuidado no trato do tema. O próprio Lima Júnior chegou a escrever o livro O Aleijadinho e Sua Arte Colonial, para décadas depois colocar em dúvida tantas “atribuições” e desconfiar de uma montagem com fins comerciais.
Em meio à crise moral sem precedentes na História brasileira, com a ausência de exemplos dignificantes para o povo, Minas ainda é um baluarte do civismo. No nosso Estado, a austeridade e a simplicidade não foram derrotadas pelo oportunismo, o consumismo deslumbrado e de mau gosto, em detrimento da sobriedade que marca o Estado, seus filhos verdadeiramente ilustres e dignos, incluindo, aqui, também sua arquitetura e mobiliário.
Junto ainda a esta homenagem a personalidade e a obra de meu avô, o desejo de contribuir para lembrar as marcas do caráter mineiro.
Aristoteles Drummond