APÊNDICE
 

O REPATRIAMENTO DAS CINZAS DOS INCONFIDENTES
MORTOS NO DEGREDO

• Extraído do livro O Amor Infeliz de Marília e Dirceu, de Augusto de Lima Júnior.
• Em 1936, escrevi um pequeno livro com o título de O Amor Infeliz de Marília e Dirceu. Pedi ao meu saudoso amigo Álvaro Martins (Seth) que fizesse as ilustrações e, durante quase três meses, todas as tardes ele trabalhava comigo na reconstituição das figuras e cenas do belo episódio da Inconfidência, dentro de uma exatidão que obtínhamos por meio de fotografias de tipos humanos da época e de pessoas da família de Maria Dorotéia Joaquina Seixas.
Quando escrevi o prefácio, fiz com que, comigo, também assinasse esse grande artista, a cuja bondade, honestidade e patriotismo, rendo aqui esta homenagem de apreço e saudade.
O prefácio foi o seguinte:
Rio de Janeiro, abril de 1936. Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas. A história das desditas do poeta ouvidor de Vila Rica Tomás Antônio Gonzaga é o que ides ler neste livro. Procuramos, em rápidos traços, contar, ou reconstituir pelo desenho, aos que desconhecerem esse episódio sentimental da Inconfidência Mineira, o romance desgraçado de duas criaturas de eleição, cruciadas por longo e duro martírio. A vida se torna cada vez mais materializada, mas no mundo haverá, sempre, um lugar para as chamas idealistas e para as consciências delicadas capazes de se enternecerem pelas coisas belas e generosas. É para elas que fizemos este livro, evocando do longínquo passado os amores de Dirceu e Marília, cujas cinzas ainda estão apartadas, em Vila Rica e Moçambique. Entre essas almas forradas de delicadezas e civismo, está a vossa e, para ela, oferecendo este livro, é que vimos apelar, no sentido de colocar sob vosso alto patrocínio o pedido que fazemos em nome de todos os brasileiros dignos, de uma reparação histórica aos mártires de 1789. Nesse malogrado movimento cívico todas as classes se integram num desejo ardente de fundar uma pátria livre, preparando com a morte e sofrimentos dos principais apóstolos a data gloriosa de 7 de setembro de 1822. Militares, sacerdotes, agricultores, advogados, magistrados, brasileiros e portugueses, não faltando nem mesmo a colaboração da raça negra, representada pela admirável renúncia e dedicação do preto Nicolau, escravo de Domingos de Abreu Vieira, deram à Conjuração Mineira caráter da mais representativa de quantas no Brasil demonstraram a nossa vocação de autonomia e o desejo de liberdade democrática intrínseca à nossa formação. Muitos desses heróis morreram no exílio, em Portugal e na África, e o repatriamento de seus despojos é o ato de justiça que constituirá uma lição de valor cívico para muitos desta geração, que se vão esquecendo de nossas glórias passadas para se afundarem no mais grosseiro dos materialismos. Vós, Sr. Dr. Getúlio Vargas, amigo dos escritores e dos artistas, compreendereis a razão deste pedido que vos dirigimos e vossas próprias mãos deverão depositar na sepultura número 11 da matriz de Antônio Dias as escassas cinzas que forem encontradas em Moçambique. E Deus Nosso Senhor há de permitir que, nesse dia, Dirceu e Marília desçam aos céus de Ouro Preto, para abençoarem o brasileiro ilustre que, com sua autoridade, tornou possível o sonho do poeta:

Depois que nos ferir a mão da morte
Ou seja neste monte ou em outra serra,
Nossos corpos terão, terão a sorte
De consumir, os dois, a mesma terra...
O MALOGRADO DIRCEU AFIRMOU QUE:
“As glórias que vêm tarde já vêm frias.”
Vós, porém, aquecereis essa glorificação tardia,
com o ardor cívico de Vosso coração de patriota.
Augusto de Lima Júnior – Álvaro Martins (Seth).

Estava o dr. Getúlio Vargas em descanso na Fazenda de São Mateus, como hóspede de meu grande e inesquecível amigo dr. João de Resende Tostes, a quem encaminhei um exemplar do livro, pedindo-lhe que o entregasse ao dr. Getúlio Vargas. Dois dias após, recebi um seu chamado, que também era dirigido ao dr. Gustavo Capanema, ministro da Educação, a fim de que seguíssemos para a Fazenda de São Mateus, pois o dr. Getúlio Vargas atendera ao meu apelo e iria baixar um decreto nesse sentido.
Vamos agora transcrever algumas notícias dos jornais da época, entre elas a do Correio da Manhã, de 21 de abril de 1936:
“Na Fazenda de São Mateus, residência do deputado João Tostes, onde se acha hospedado o presidente Getúlio Vargas, realizou-se, ontem, a assinatura do Decreto repatriando os despojos dos Inconfidentes de 1789 mortos em degredo. O presidente Getúlio Vargas, atendendo ao apelo que lhe dirigiu há dias o escritor Augusto de Lima Júnior, em carta prefácio das biografias de Gonzaga e Marília de Dirceu, quis dar a esse decreto um significativo realce, assinando-o em território mineiro, num solar de família representativa das virtudes da raça montanhesa. Por isso, fez ir ontem àquela localidade o ministro da Educação, sr. Gustavo Capanema, e o escritor que pleiteara a justa reparação histórica, assinando às treze horas o decreto determinando o transporte para o Brasil das cinzas dos inconfidentes mortos no exílio, e autorizando a publicação em livro dos Autos do processo da Alçada, em 1792.
Estiveram presentes ao ato, além do dr. João Tostes e sua família, o governador Benedito Valadares, que pronunciou um discurso alusivo ao gesto de delicadeza do presidente Getúlio Vargas, membros do governo mineiro, intelectuais, jornalistas e numerosas famílias de Juiz de Fora. Logo após o ato, o escritor Augusto de Lima Júnior pediu ao dr. Getúlio Vargas que fosse o intérprete, junto do sr. Benedito Valadares, dos anseios de todos os brasileiros, no sentido de ser posto em execução o decreto declarando a cidade de Ouro Preto monumento nacional. Sendo esse ato do Governo Provisório, aprovado pelo artigo 18 da Constituição, caberia à cidade ser administrada por uma prefeitura técnica, capaz de salvaguardar o valioso patrimônio da antiga Vila Rica. O presidente Getúlio Vargas acedeu ao pedido e, depois de conferenciar com o governador Benedito Valadares, fez ir a sua presença o escritor mineiro, ao qual transmitiu o assentimento do chefe do Executivo local a tão patriótica solicitação. O dr. Benedito Valadares comunicou, então, aos jornalistas presentes, que, logo que chegasse a Belo Horizonte, faria lavrar o ato criando a Prefeitura de Ouro Preto, preenchendo o cargo com um nome de relevo entre os nossos melhores conhecedores de arte e história colonial.
O Decreto e seus considerandos, redigidos pelo autor deste livro, tem o seguinte texto:
Considerando que a Conjuração Mineira de 1789 congregou, no mesmo ideal de autonomia política e de governo republicano, intelectuais, militares, sacerdotes, magistrados, agricultores, comerciantes e trabalhadores, brasileiros, portugueses e escravos africanos, todos identificados no anseio de fundar no Brasil uma pátria livre;
Considerando que os cidadãos envolvidos na Conjuração, e denominados historicamente de “inconfidentes”, sofreram duras penas de cárcere, degredo e martírio, sendo o Alferes Xavier, o Tiradentes, justamente proclamado o protomártir da independência e da República;
Considerando, ainda, que os despojos desses inconfidentes, mortos no exílio, não receberam ainda a consagração e a homenagem de repousar em terras brasileiras;

Resolve:
Artigo 1o –
Fica autorizado o Ministério da Educação e Saúde Pública, em combinação com o das Relações Exteriores e da Marinha, a providenciar imediatamente que, obtidas as permissões necessárias, de quem de direito, sejam exumadas de suas sepulturas nas terras de degredo e transportadas para o Brasil as cinzas dos inconfidentes de 1789, cujos nomes constam da sentença de 20 de abril de 1792, da Alçada Régia no Rio de Janeiro.
Artigo 2o - Fica o Ministro da Educação e Saúde Pública autorizado a fazer a publicação, em livro, dos autos do processo da Inconfidência Mineira e todas as outras peças existentes em arquivos relativos a esse fato histórico.
Artigo 3o- À cidade de Ouro Preto ficará confiada a guarda desses despojos, que receberão culto cívico nacional, em monumento que lhes será consagrado.
Artigo 4o- As despesas decorrentes da execução do presente decreto serão efetuadas à conta das verbas 1-subconsignação nº 38 do Ministério da Educação e 6 -subconsignação diversas despesas, do Ministério das Relações Exteriores.
Artigo 5o- Revogam-se as disposições em contrário”.
Tendo recebido o honroso encargo de providenciar sobre os fins do decreto acima, o autor deste livro obteve do sr. comendador Albino Souza Cruz que tomasse junto ao Governo de Portugal as primeiras providências necessárias ao bom êxito da missão, no que foi, ainda, ajudado pelo embaixador A. de Araújo Jorge. Graças à alta visão dos eminentes portugueses, ministros Oliveira Salazar, Carneiro Pacheco e Vieira Machado, em seis meses puderam ser conduzidas para o Brasil, a bordo do navio “Bagé”, as preciosas cinzas dos inconfidentes mortos no degredo.
Sobre as exumações, lê-se no Comércio do Porto, de 26 de novembro de 1936, a seguinte notícia:
“Os Inconfidentes Mineiros – Como o Comércio do Porto anunciou, chegaram anteontem a Lisboa, no paquete João Belo, a fim de seguirem para o Brasil, as urnas com os restos dos “Inconfidentes Mineiros”, conspiradores que, em virtudes da Conjuração de 1789, foram desterrados três anos depois, para Angola, em cujos presídios vieram a morrer. O nosso prezado colega A Província de Angola, no seu número 2 do corrente, relata o que se passou naquela colônia com a recolha das ossadas e cinzas de cinco dos inconfidentes mineiros, e a entrega respectiva ao Governo Geral. Nesse relato nos baseamos para informar aos nossos leitores.
O trabalho difícil de pesquisa e recolha das ossadas foi realizado por uma Comissão nomeada pelo Governo Geral, constituída pelos srs. doutores Manuel Figueira, diretor dos Serviços de Administração; dr. Manuel Alves da Cunha, vigário-geral do Bispado e Alberto de Lemos, chefe da Repartição dos Serviços de Estatística e diretor do Arquivo Histórico, que desempenharam a missão com muita dedicação e maior interesse. Em 30 de outubro findo, às 13 horas, a referida Comissão foi a Palácio do Governo, onde se procedeu à cerimônia da entrega das urnas ao sr. comandante Lopes Alves, usando da palavra o sr. dr. Manuel Figueira, que elogiou a forma rápida e brilhante como os srs. drs. Manuel Alves da Cunha e Alberto Lemos realizaram os desejos do Governo, conseguindo, após poucos dias do início dos trabalhos, dá-los por concluídos, apesar de os restos mortais dos inconfidentes estarem sepultados em pontos diversos da Colônia. O sr. dr. Manuel Figueira comunicou ao encarregado do Governo que, do João Belo, deviam chegar a Luanda as ossadas de um outro conspirador que morrera na região do Bimbe (Baílunde). Também para aquelas, acrescentou, estava preparada uma urna igual às outras. Seguidamente, o distinto funcionário leu o ato de entrega que foi feito em triplicado e que a seguir reproduzimos: “Aos trinta dias do mês de outubro do ano de mil, novecentos e trinta e seis, nesta cidade de São Paulo, de Luanda, capital da Colônia de Angola, e no edifício onde está instalado o Arquivo Histórico de Angola, à Calçada de Santo Antônio, procedeu a Comissão constituída pelos Excelentíssimos Senhores, Dr. Manuel Pereira Figueira, Diretor dos Serviços de Administração Civil; Dr. Manuel Alves da Cunha, vigário-geral do Bispado e Alberto de Lemos, Chefe dos Serviços de Estatística e Diretor do Arquivo Histórico, ao encerramento das ossadas e cinzas dos conspiradores da Inconfidência Mineira, de mil, setecentos e oitenta e nove, que vieram desterrados para Angola, em mil, setecentos e noventa e dois, as quais foram retiradas dos invólucros provisórios que acompanharam os autos vindos – uns dos antigos presídios do interior (Muxima, Massangano, Cambambe e Ambaca) e outro desta cidade, exumado da antiga Catedral de Nossa Senhora da Conceição de Luanda, referidos os primeiros, ao Dr. José Álvares Maciel, Dr. Inácio José de Alvarenga Peixoto, sargento-mor Luís Vaz de Toledo Piza e tenente-coronel Domingos de Abreu Vieira, e o segundo ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, ossadas e cinzas encontradas segundo as apuradas investigações a que se havia procedido; foram colocadas em pequenas caixas de madeira de fabrico desta Colônia, envoltas com fitas com as cores nacionais e, depois, devidamente lacradas e seladas com o sinete usado na Direção da Administração Civil, que diz: “Secretaria Geral do Governo de Angola. – Luanda”, serviço a que procedeu a referida Comissão, fazendo, ato contínuo, entrega das cinco caixas ao Governo Geral desta Colônia, a fim de serem remetidas para o Ministério das Colônias, de harmonia com as instruções que recebeu Sua Excelência o Governador Geral. E para constar, se lavrou o presente auto, feito em triplicado, que vai ser assinado pelos membros da Comissão e pessoas presentes, e entregue, a seguir, ao Governo Geral. Data Supra. – Assinados Manuel Pereira Figueira, Manuel Alves da Cunha, Alberto Lemos, Pedro de Miranda, Antônio Serra Coelho, Alberto de Lemos Júnior, A. Escórcio do Quental, Rui Pires, Rodrigo Marin Chaves.
Terminada a leitura, o encarregado do governo agradeceu à Comissão o trabalho realizado, afirmando que, em face do seu bom êxito, não só o Sr. Ministro das Colônias como o governo brasileiro ficarão plenamente satisfeitos”.
O jornal O Instransigente, da cidade de Benguela, em seu número de 18 de novembro de 1936, publicou o seguinte: “Realizou-se, na passada quarta-feira, a exumação da ossada do coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, um dos “inconfidentes” deportados para Angola e aqui falecido e sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Pópulo. Ao ato assistiram, além da Comissão composta como já dissemos, pelos Srs. Luís Botelho, padre João Serra e Pedro Vila Nova, os Srs. Francisco Borja do Nascimento e Fausto de Matos, assinando todos o respectivo auto do teor seguinte:
“Aos onze dias do mês de novembro do ano de mil, novecentos e trinta e seis, nesta cidade de Benguela e Igreja de Nossa Senhora de Pópulo, achando-se presentes os Excelentíssimos senhores Luís Antônio Ribeiro Botelho Júnior, Administrador de Circunscrição, servindo de Diretor Provincial de Administração Civil; reverendo João Antunes Duarte Serra, pároco desta freguesia, e Pedro Severo de Assunção Vila Nova, Secretário da Câmara Municipal desta cidade, que compõem a Comissão nomeada por despacho de Sua Excelência, o Senhor Governador da província, de 31 de outubro findo, para investigação, pesquisa e recolha das ossadas do coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, falecido no ano de mil e oitocentos e sepultado nesta igreja. Aqui, em virtude das pesquisas feitas pela citada Comissão e constantes do Auto de Investigação, por ela lavrado, se procedeu à exumação das ossadas do coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes, as quais foram recolhidas numa urna, ficando à guarda da referida Comissão para ser entregue a Sua Excelência, o Governador da Província. Para constar se lavrou o presente Auto, que vai ser assinado pela Comissão e testemunhas presentes, Francisco Borja do Nascimento, funcionário do quadro administrativo e secretário de Sua Excelência, o Governador da província, e Fausto Alves, funcionário municipal. Assinados. Luís Botelho, padre João Antunes Duarte Serra, Pedro Severo de Assunção Vila Nova, Francisco Borja do Nascimento, Fausto de Alves.”

Continua O Intransigente:
“Só após morosas e trabalhosas investigações, a Comissão conseguiu averiguar que naquela igreja havia sido sepultado este “inconfidente”. Mesmo depois disso, não foi sem dificuldades que a sepultura se localizou, sendo necessário levantar a maior parte do soalho da igreja até que finalmente se descobriu a inscrição que a assinalava.
“A urna, entregue ao comandante do Angola, seguiu diretamente para o Sr. Ministro das Colônias”.
As exumações em Moçambique foram presididas pelas autoridades civis e eclesiásticas, conforme os diversos termos que são assinados por delegados seus, na forma seguinte:
VITORIANO GONÇALVES VELOSO – Nossa Senhora dos Remédios de Cabaceira Grande, Circunscrição de Mossuril. Exumação presidida pelo Sr. Administrador da Circunscrição, Domingos da Encarnação Vieira, e secretário Antônio Joaquim Rodrigues. Testemunhas do ato: Capitão Augusto Rufino, Tenente Artur de Almeida Campos, Diretor do Depósito de Material de Guerra; José Morbey Ferro, Chefe da Estação Telégrafo-Postal; Francisco Xavier de Melo, proprietário; etc.
DESEMBARGADOR TOMÁS GONZAGA – Translado da Sé Velha de Moçambique para o jazigo de família de Nossa Senhora dos Remédios de Cabeceira Grande. Circunscrição de Mossuril. Exumação procedida pelas mesmas autoridades citadas.
JOÃO DA COSTA RODRIGUES – Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Mossuril. – Exumação procedida pelas mesmas autoridades citadas.
DOUTOR SALVADOR CARVALHO DO AMARAL GURGEL – Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Inhambane. – Exumação procedida pelo Intendente do Distrito, Sr. Júlio Augusto Pires, e secretário Caetano Maria de Lencastre, na presença dos Exmos. Srs. Dr. Juiz de Direito da Comarca, Dr. José Rodrigues de Almeida Ribeiro; Delegado do procurador da República, Dr. Mário Ferreira; capitão da 8ª Companhia Indígena, capitão Francisco Xavier Porfírio da Silva; Secretário da Administração do Conselho, Luís Carlos Lopes da Cruz; Superior da Missão de Nossa Senhora da Conceição e pároco, Padre Antônio Maria de Oliveira, e várias outras autoridades e pessoas gradas.
CAPITÃO VICENTE DA MOTA – Cemitério de Vila de Sena. Exumação procedida pelo Chefe da Circunscrição de Vila de Sena e Delegado de Saúde, respectivamente, Manuel Rodrigues Martins e Dr. Armando Ernesto da Torre do Vale de Lacerda, e testemunhas.
ANTÔNIO DE OLIVEIRA LOPES – Porto Belo – Exumação feita pelo delegado Joaquim Carvalho Júnior, presentes várias testemunhas, entre as quais dois brasileiros, de nomes José Marques e José de Azevedo Moreira.
CORONEL JOSÉ AIRES GOMES – Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Inhambane. – Exumação feita pelas mesmas autoridades e testemunhas de SALVADOR CARVALHO DO AMARAL GURGEL.
Todas essas urnas foram acompanhadas de documentos, remetidos para Lisboa e entregues ao Exmo. Sr. A. Guimarães de Araújo Jorge, que as encaminhou ao delegado especial do Brasil, Augusto de Lima Júnior, que as conduziu para o Brasil a bordo do paquete Bagé”.
O Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em seu número de sábado, 26, e domingo, 27 de dezembro de 1936, publicou a seguinte notícia da chegada ao porto do Rio de Janeiro do paquete Bagé, que transportava as cinzas dos Inconfidentes de 1789:
“Chegaram anteontem a esta capital, transportados pelo navio nacional Bagé, os restos mortais dos Inconfidentes que na África faleceram durante o duro exílio que lhes impôs o então Governo de Portugal, após a Devassa do ano de 1789. As urnas que contêm as cinzas dos primeiros sonhadores da independência do Brasil vieram sob a guarda do escritor e poeta mineiro Augusto de Lima Júnior, que, incumbido pelo governo brasileiro, foi buscá-las em Lisboa, onde se encontravam, por determinação das autoridades portuguesas. O Governo fará inumar, em Ouro Preto, os seus restos mortais, ficando, assim, o povo brasileiro satisfeito por ver repousar no Brasil os ossos dos patriotas que sinceramente se sacrificaram pela sua independência. As cinzas dos Inconfidentes se encontram em treze urnas de cedro, lacradas com os selos do governo português, todas cobertas com bandeiras brasileiras, e estão colocadas na biblioteca do Bagé, que foi transformada em câmara ardente. Durante a viagem, os passageiros do transatlântico brasileiro e a sua tripulação prestavam tocantes homenagens cívicas e religiosas à memória daqueles que souberam sacrificar suas existências pela grandeza da pátria. A transladação das cinzas dos Inconfidentes, a bordo do Bagé, para a Catedral Metropolitana, será feita hoje às quinze horas. As urnas serão desembarcadas no pavilhão do Touring Clube, organizando-se o imponente cortejo de que participarão o Sr. Presidente da República, acompanhado de todo o ministério, as bancadas mineiras na Câmara e no Senado, associações e povo, todos identificados no mesmo propósito patriótico de homenagear a memória e os despojos dos que se imolaram pela emancipação do Brasil. No cais, usarão da palavra o deputado Negrão de Lima, representante de Minas Gerais, e o deputado Pedro Calmon, historiador e professor. As forças de terra e mar, por determinação dos ministros da Guerra e da Marinha, formarão em direção à Catedral Metropolitana. Nesse templo, falará o escritor Augusto Frederico Schmidt. As urnas ficarão depositadas na catedral, e franqueadas à visitação pública”.
Em seu primeiro número de terça-feira, 28-29 de dezembro, publicou ainda o Jornal do Commercio a seguinte nota:
“Marcado para domingo o desembarque das urnas que trazem os restos mortais dos Inconfidentes, desde antes das 15 horas havia um intenso movimento na Praça Mauá, e no começo da Avenida Rio Branco, onde formaram tropas de terra e mar, em homenagem à memória daqueles heróis da História pátria. O povo se distribuía pela praça e as autoridades e representações enchiam o pavilhão do Touring Clube e as dependências do Bagé, onde, em câmara mortuária, se achavam reunidas as treze urnas que o governo brasileiro conseguiu repatriar com a colaboração das autoridades portuguesas, tendo sido seu delegado o sr. Augusto de Lima Júnior, que, pessoalmente, acompanhou-as de Portugal até o Rio. Muito antes da hora fixada, já se encontravam no local o Sr. Gustavo Capanema, Ministro da Educação; o governador do Estado de Minas Gerais, Sr. Benedito Valadares; o vice-presidente da Câmara dos Deputados, Sr. Antônio Carlos; os ministros Agamenon Magalhães, Odilon Braga e Gaspar Dutra; a bancada mineira com o seu líder à frente, Sr. Noraldino Lima; os senadores mineiros e outros senadores da República; ministros da Corte Suprema, elevado número de deputados, de altas patentes do Exército e representações de associações culturais, como a Academia Brasileira de Letras, pelos Srs. Adelmar Tavares e Olegário Mariano; o Instituto Histórico, pelo Sr. Afrânio de Melo Franco; o Centro Paulista, pelo Ministro Laudo de Camargo; a Associação dos Artistas Brasileiros, pelo Sr. Raul Pedrosa, etc.
Às 15 horas chegou o Sr. Getúlio Vargas, acompanhado do Chefe do Estado-Maior da Presidência da República e de outros membros do seu gabinete. S. Excia. foi recebido pelo Ministro Capanema e, logo a seguir, cumprimentado pelas altas autoridades presentes. As bandas de música tocam o Hino Nacional, cerimônia que se repete por ocasião da entrada e saída do Sr. Getúlio Vargas no navio Bagé. O Sr. Presidente da República, ministros, parlamentares e delegações, visitaram a câmara mortuária em que viajaram as urnas. No salão nobre do navio, o Sr. Gustavo Capanema leu a ata de recebimento das urnas, que foi subscrita pelo Chefe da Nação e pelos presentes. Deixando o navio as autoridades, a guarnição do Bagé, por ordem do seu comandante, formou para transportar as urnas, que desceram pelas mãos dos marinheiros da tripulação. Em terra, foram arrumadas nas carretas do Primeiro Grupo de Obuses, sob a guarda militar, oferecendo um aspecto de grande imponência. As carretas, em forma, rumaram para o pavilhão do Touring Clube, onde as autoridades e o povo aguardavam o desfile. Por essa ocasião, falou o Sr. Francisco Negrão de Lima, deputado federal pelo Estado de Minas Gerais. (Segue-se o discurso). Falou em seguida o Sr. Pedro Calmon, deputado federal e membro da Academia Brasileira de Letras, em nome do Poder Legislativo da República, tendo pronunciado um vibrante discurso que causou grande impressão. A seguir, o representante do Centro Carioca convidou o Sr. Getúlio Vargas a lançar sobre as urnas as pétalas de rosas que o Centro ofereceu em culto à memória dos Inconfidentes. O Sr. Presidente acedeu, acompanhado dos Ministros presentes. Formou-se, então, o cortejo. À frente, as tropas do Exército e da Marinha, logo depois as carretas conduzindo as treze urnas. Seguiram-se os automóveis do Presidente da República, do Governador de Minas, do Prefeito do Distrito Federal, Ministro da Educação, Ministro do Trabalho, Ministro da Guerra, Presidente da Câmara dos Deputados, Vice-Presidente do Senado, das instituições representadas, das autoridades e de pessoas que se associaram às homenagens. O desfile atravessou a avenida até a rua da Assembléia, em direção à Catedral Metropolitana. Ali o povo aguardava a chegada. Na nave, falou o Sr. Augusto Frederico Schmidt, evocando as figuras gloriosas da Inconfidência. As urnas foram finalmente depositadas na capela do Senhor dos Passos, entre inúmeras flores que guarneciam a pequena capela da Catedral Metropolitana. Entre elas, achava-se a coroa oferecida pela guarnição do navio-escola Sagres, da Marinha de Guerra Portuguesa, e a do Estado da Bahia, a do real Gabinete Português de Leitura, etc. Após a visitação pública, que foi concorridíssima, foi fechada a capela do Senhor dos Passos.
As urnas, posteriormente transferidas para Ouro Preto, foram, ainda lá, recebidas pelo Sr. Getúlio Vargas. Encontram-se recolhidas ao Museu da Inconfidência, criado em virtude do decreto que determinou o repatriamento dos inconfidentes mortos no degredo.