ALEIJADINHO
 

O mulatismo, que foi fenômeno do nacionalismo mineiro do século XVIII e voltou a ser exaltado no século xx, tem no mito do Aleijadinho a sua mais alta expressão. No entanto, a questão da existência ou não de um artista de nome Antônio Francisco Lisboa, mestiço que sofria de doença degenerativa e que seria autor de centenas de obras admiráveis nas cidades mineiras, especialmente nas igrejas, merece um exame desapaixonado.
Inicialmente, as obras eram “atribuídas ao Aleijadinho” e com o tempo foram passando a uma autoria inequívoca, sem nenhum dado ou documento novo. Até quando da grande Exposição do Quinto Centenário, o próprio Museu Nacional de Belas-Artes apresentou uma coletânea de dezenas de imagens de coleção particular como sendo de autoria do artesão.
O assunto geralmente é tratado com paixão. Na cidade de Ouro Preto, por exemplo, há pessoas que defendem a existência do Aleijadinho para evitar que a cidade perca seus encantos de turismo histórico e artístico. Como se as obras não tivessem valor pelo que são e sim por quem as fez.
Augusto de Lima Júnior, um apaixonado em tudo que fazia e no que acreditava, partiu para negar a existência do personagem, atribuindo tudo à imaginação de Rodrigo Bretas, autor do livro Traços Biográficos de Antônio Francisco Lisboa. Realmente, ao longo do período em que supostamente viveu o artista e em que foi escrito o livro de Bretas, não existe nenhuma outra referência a alguém com tais características. Nem um depoimento sobre o mestiço atrofiado, carregado por escravos, autor de obra tão vasta, que para conseguir tal produção precisaria ter quatro mãos, e não duas mutiladas.
São muitos os autores que, de uma forma ou de outra, fortalecem a nossa tese de que o assunto precisa ser examinado sem paixão, quando contestam a presença do artista em tantos lugares, em produção tão rica. O antigo diretor do Arquivo Público Mineiro, Feu de Carvalho, em O Aleijadinho, limita a obra em relação ao que normalmente é propalado. Zoroastro Passos, outro historiador, em seu livro Em torno da História de Sabará, levanta sérias dúvidas quanto à presença do artista na Matriz e na Capela de Nossa Senhora do Ó.
Sabe-se que as igrejas levavam algum tempo para serem construídas, geralmente com recursos doados às irmandades por fiéis abastados. A leitura do excelente As Igrejas Setecentistas de Minas Gerais, de Paulo Mourão, oferece um trabalho grandioso de levantamento e notas explicativas de centenas de igrejas e capelas mineiras, mas é muito generoso em apontar Aleijadinho, do qual o autor se confessa entusiasta, como responsável por uma infinidade de obras, de todos os tipos, tamanhos e escolas.
Afinal, sabe-se, sem dúvida, que ligar o nome de Aleijadinho a uma obra agrega milhões ao patrimônio dos felizes possuidores dessas preciosidades, que chegaram ao mercado ao longo das décadas em função de roubos e desvios. Poucas peças foram vendidas diretamente pelas paróquias ou mitras diocesanas, embora existam casos comprovados de vendas registradas. Na mais recente edição do livro de Lima Júnior, Vila Rica de Ouro Preto, de 1996, que coordenei, incluí entrevista ao jornal Folha de São Paulo (caderno Folha Ilustrada), edição do dia 16 de março do mesmo ano, do pesquisador paulista Dalton Sala, ao correspondente em Lisboa, Jair Rattner, em que é questionada a vida e a obra de tal cidadão, por falta de provas e pela presença de recibos de outras pessoas para o mesmo tipo de trabalho, nas mesmas igrejas.
Na Revista de História e Arte, que Augusto de Lima Júnior editou em Belo Horizonte nos anos 60, grandes nomes da historiografia mineira, como Salomão de Vasconcelos e Waldemar de Almeida Barbosa, também se manifestaram, questionando os detalhes da biografia e da obra de alguém que não mereceu nenhum registro de visitantes estrangeiros, artistas da época ou prelados. A existência de quem tivesse o dom artístico capaz de tais obras seria por si só suficiente para os registros, como foi o caso de Manoel da Costa Athayde, ainda mais cercado do fascínio da mestiçagem e do atrofiamento. Tudo parece muito imaginoso e criativo. E atende ao que se convencionou no Brasil ser “politicamente correto”, pelo fato de o Aleijadinho ser mulato e marcar um traço tropical, afastando a lembrança da presença de centenas de artesãos portugueses e italianos, especialmente entre nós, assim como os traços de nossas igrejas setecentistas – mineiras, cariocas, baianas, pernambucanas e maranhenses – se assemelharem às de Portugal. Tudo na linha “moderna”, a mesma que prefere apresentar Zumbi dos Palmares à admiração e reconhecimento dos brasileiros de sangue negro, a Princesa Isabel e a Família Imperial, que muito antes da abolição já haviam libertado todos os seus escravos. Querem tornar a lenda uma bandeira política.
Waldemar de Almeida Barbosa lançou pela Editora Itatiaia-Universidade de São Paulo, em 1988, o livro O Aleijadinho de Vila Rica, que é um testemunho das contradições que cercam o artista sobre quem inexistem depoimentos ou documentos da época em que exerceu tão rica e densa atividade artística. O historiador, autor, entre outras obras notáveis, do Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais, começa logo a alinhar uma série de equívocos relativos à documentação do registro civil de Antônio Francisco Lisboa, referido por seu primeiro biógrafo Rodrigo Bretas. E alinha tantos outros, como o fato de haver acrescido o nome Lisboa, que não consta em nenhum documento dos supostos pai e mãe do registrado. Outro Rodrigo, o Andrade, primeiro diretor do Patrimônio Histórico na Era Vargas, considera o documento duvidoso e lembra que o mesmo teria sido baseado no atestado de óbito do cidadão, o que chega a ser bizarro.
Minas Gerais, na época em que teria vivido o misterioso artista, era fenômeno mundial. É natural que a curiosidade levasse muita gente a visitar e a escrever sobre a região tão rica de ouro e diamantes, e que no interior da América do Sul, a 400 quilômetros da costa, se erguessem cidades dotadas de belíssimas igrejas e palácios. Assim, são muitos os depoimentos de viajantes publicados e sempre sem referência ao genial mutilado. Auguste de Saint Hilaire, que escreveu trabalho sobre Minas Gerais, não se refere ao fenômeno. Muito menos o médico francês Sigaud, autor de um livro sobre o clima e doenças no Brasil, especialmente de Minas, estado que visitou. O irlandês Ricardo Gumbleton também escreveu sobre sua viagem a Minas e não toca no fenomenal artesão, assim como o diplomata austríaco Barão Wenzel de Marescal. E mais, Cláudio Manoel da Costa, poeta e historiador, que deixou razoável obra, nunca se referiu a um artista tão bem-dotado. Cláudio Manoel tinha um irmão franciscano, ordem que construiu a belíssima igreja de Ouro Preto, assim como outras no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. Também os franciscanos não registraram o colaborador.
O autor Feu de Carvalho foi mais longe. Indignou-se com a generosidade com que José Mariano Filho relacionou obras atribuídas ao Aleijadinho quando encontrou referência ao pórtico do convento de Congonhas, datado de 1844, 30 anos após a morte do mulato mutilado. Waldemar de Almeida Barbosa lembrou ainda que Gastão Penalva manifestou sua estranheza pela ausência de referências ao Aleijadinho em Tomás Gonzaga, Bárbara Eliodora, Álvares Maciel, Paula Freire, os Alvarenga, todos que viveram e escreveram na mesma época.
Salomão de Vasconcelos, no livro Verdades Históricas, também manifesta sua indignação com o fato de se atribuir ao Aleijadinho todas as criações artísticas antigas existentes em Minas. Rugendas, que visitou o Brasil por tanto tempo e deixou, além de gravuras, depoimentos sobre nossa terra, nunca deu notícias do Aleijadinho.
Mas o entusiasmo pelo fantástico da figura imaginada, seu sentido ideológico, despertando um nacionalismo primário, bem ao estilo Terceiro Mundo, chegou a impressionar um homem como Gastão Penalva, que em seu livro sobre Aleijadinho começa por compará-lo a Miguel Ângelo, o que dispensa comentários.
D. João VI promoveu, em 1816, a vinda ao Brasil da Missão Artística Francesa, com grandes nomes das artes, especialmente alguns ligados ao período de Napoleão Bonaparte, na época já deposto. Nessa oportunidade, vieram personalidades que acabaram ficando, deixando famílias que até hoje são notáveis na vida brasileira e mineira. Esta missão está muito bem documentada e explicada em livro de Afonso Escragnolle Taunay, descendente de um dos integrantes da missão, que trouxe três irmãos Taunay. Aliás, dentre os integrantes, estavam Grandjean de Montigny, Nicolas Antoine e Auguste Marie de Taunay, Jean Baptiste Debret, os irmãos Marc e Zepherin Ferrez, Joachim Lebreton e Rugendas. Todos agrupados em torno da Academia Imperial de Belas-Artes, no Rio, mas acompanhando o que se passava em outros centros de arte e cultura, como Minas e Nordeste. Esses intelectuais e artistas deixaram livros, depoimentos e cartas, sem, em nenhum deles, existir algum tipo de referência ao “gênio mutilado”.
Richard Burton, considerado um dos primeiros autores sobre Minas, narra em detalhes sua visita a Ouro Preto, com referências inclusive a Tiradentes.
Burton faz referência a ouvir falar de um artista com as características de Aleijadinho, mas de forma vaga, que confirma ser tudo uma lenda ou que a base da verdade seja apenas a existência de um, entre centenas de auxiliares dos grandes mestres, com a deformação que naturalmente chama a atenção. Burton fala em artista conhecido como “Aleijado” ou ‘Aleijadinho’, que seria conhecido também como “Inacinho”. Ora, mais adiante Burton volta a se referir a existência de tal “Aleijado” mas esclarece em nota que “Aleijadinho” é, segundo acreditava, o apelido de um pintor que morou no Rio, de nome José Gonçalves. Tudo muito nebuloso para se tratar de artista tão genial e de produção industrial e não artesanal..... E tudo escrito poucas décadas depois dos eventos por autor minucioso.
Mas é o historiador de São João del-Rei, Luiz de Mello Alvarenga, quem sepulta de vez a passagem eventual do tal “Inacinho” ou “Aleijadinho” na cidade, ao provar que o mestre principal foi Francisco de Lima Cerqueira, nas duas igrejas monumentais da cidade, São Francisco de Assis e N. S. do Carmo. Este Lima Cerqueira trabalhou também em Ouro Preto e Congonhas e era português de Braga. O Alferes Aniceto de Souza Lopes, seu discípulo, terminou a Igreja de São Francisco de Assis, de São João, depois da morte de Lima Cerqueira, conforme ampla documentação na Irmandade. E a alegação, repetida à exaustão, de que não existem registros do tal Antonio Francisco pelo fato de ser mulato, perde o sentido ao se saber que Aniceto era pardo. A mentira na presença do tal “aleijadinho” na Igreja de São Francisco, de São João del-Rei, chega ao sobrenatural, de vez que um dos altares a ele atribuído – São Lúcio e Santa Bona - é de 1827 e com ampla documentação de que os autores foram os artistas locais Jerônimo da Assunção, João Alves dos Santos e seu filho Carlos José dos Santos, como assegura o conceituado Alvarenga. No mesmo altar está São João Evangelista. Apesar de haver consenso na cidade de que o suposto “aleijadinho” nada fez nas igrejas, existe até um busto seu em praça pública.Tudo, portanto, conspira em favor da convicção de que a lenda teve fundamento na existência de um auxiliar com tais características, mas sem essa dimensão artística e muito menos quantidade de obras, em tantos lugares e de todos os tipos. Uma evidente fantasia.
Charles Ribeyrolles, francês, vem ao Brasil, escreve livros, viaja a Minas, narra fatos que ouve em centenas de conversas, é um contestador ao denunciar e criticar a situação colonial do Brasil, exalta os inconfidentes, mas nada fala do “puro brasileiro, mestiço e artista genial”; para um homem com a sua cabeça, cairia como uma luva.
Aliás, um livro notável é Tiradentes : O Corpo do Herói, de Maria Alice Milliet, da Martins Fontes, que pode servir de guia aos que desejam conhecer os que viveram e escreveram sobre a época em que teria vivido o Aleijadinho e não fizeram nenhuma referência a ele.
A historiadora Sonia Maria Fonseca defendeu na Unicamp, em dezembro de 2001, a tese “A invenção de Aleijadinho”, que concorda com Dalton Sala, sempre com base no alerta inicial de Algusto de Lima Junior sobre a fragilidade de uma história sem referências de época.
É impressionante o receio de se desmistificar essa história toda, que nos torna até ridículos diante de estudiosos estrangeiros. A América Espanhola, com monumentos significativos em todo o continente, não alimenta este tipo de imaginário.
O mais provável é que tenha existido alguém com este nome que, junto com outras centenas de artistas ou auxiliares, trabalhava na época. Talvez, até um deles tenha sido tomado por moléstia degenerativa. Mas atribuir a uma única pessoa a criação de traços comuns a tantas outras obras da época, espalhadas não só pelo Brasil, mas pela Europa, além da América Espanhola, é de uma teimosia e de uma ignorância lamentáveis. Afinal, o Brasil não perde nada com a verdade. Pelo contrário, fortalece a credibilidade que deve cercar assuntos dessa natureza. A mais, a obra notável aqui foi feita e aqui ainda se encontra em boa parte. Cabe a nós preservá-la, e não alimentarmos lendas que só servem para enriquecer os mercadores de arte sem compromisso com a verdade histórica. E, por favor, não venham defender o suposto Aleijadinho com a alegação de que não há registros sobre ele por causa da discriminação racial; mas, e os outros, muitos dos quais mestiços, que são referidos e sobre cuja existência e autoria de obras não existem dúvidas?